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#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

— Um pezo do coração!... Chorando passa.

E a menina sahiu a soluçar.

— Tudo isso é espasmo! observou Ursula. Si não a casarem quanto antes, vai a mais, a mais, e talvez quando lhe quizerem acudir, não tenha cura.

— Já que se offerece a occasião, carecemos tratar d'este particular, Ayres, em que desde muitos dias atraz ando para tocar-vos.

Perturbou-se Ayre's a ponto que faltou-lhe a voz para retorquir; foi a custo e com esforço que, vencida a primeira commoção,pouderesponder.

— Estou ao vosso dispôr, Duarte.

— É tempo de saberdes que Antonio de Caminha quer bem a Maria da Gloria e já nos confessou o desejo que tem de a receber por esposa. Tambem a pediu o Fajardo, sabeis, aquelle vosso camarada; mas essa é muito velho para ella;podia ser seu pai.

— Tem a minha idade, com differença de mezes, observou Ayres com uma expressão resignada.

— Assentei não decidir «obre isso em vossa ausencia, pois embora vos considerassemos perdido, não tinhamos essa terteza; e agora que nos fostes felizmente restituido, a vós compete decidir da sorte d'aquella que tudo vos deve.

— E Maria da Gloria?... perguntou Ayres ja senhor de si. Retribue ella o affecto de Antonio de Caminha, e o quer por marido?

— Sou capaz de jurar, acudiu Ursula.

— Não consenti que se lhe falasse n'isto, sem primeiro sabermos si era de vosso agrado essa união. Mas ella ahi está; podemos interrogal-a si o quereis-, e será o melhor.

— Avisaes bem Duarte.

— Ide, Ursula, e trazei-nos Maria da Gloria; mas não careceis de prevenil-a.

Com pouco voltou a mulher de Duarte acompanhada pela menina.

— Maria da Gloria, disse Duarte, vosso primo Antonio de Caminha pediu vossa mão, e nós desejamos saber si é de vosso agrado casar-vos com elle.

— Já não sou d'este mundo, para casar-me n'elle, respondeu a menina.

— Deixai-vos de ideas tristes. Haveis de recobrar a saude: e com o casamento voltará a alegria que perdestes!

— Essa mais nunca!

— Emfim decidi d'uma vez si quereis Antonio de Caminha por marido, pois melhor não creio que possais achar.

— É do agrado de todos, este casamento? perguntou Maria da Gloria fitando os olhos em Ayres de Lucena.

— De todos, começando por aquelle que tem sido vosso protector, e que tanto, si não mais do que vossos pais, tinha o direito de escolher-vos um esposo.

— Pois que foi escolhido por vós, senhor Ayres, aceito.

— O que eu ardentemente desejo, Maria da Gloria, é que elle vos faça feliz.

Um triste sorriso desfolhou-se pelos labios da menina.

Ayres retirou-se arrebatado, porque sentiu romper-lhe do seio o soluço, por tanto tempo recalcado.

XVI

A BODA

Eram cerca de 4 horas de uma formosa tarde de Maio.

Abriam-se de par em par as portas da matriz, no alto do Castello, o que annunciava a celebração de um acto religioso.

Já havia no adro de S. Sebastião numeroso concurso de povo, que ali viera trazido pela curiosidade de assistir á ceremonia.

A' parte, em um dos cantos da igreja, recostado ao angulo via-se um velho marujo que não era outro.sinão o Bruno.

O contramestre não estava n'esse dia de boa sombra; tinha um semblante carrancudo, e ás vezes fechando a mão callejada ferrava um murro em cheio na carapuça.

Quando seus olhos, espraiando-se pelo mar, encontravam a escuna, que de ancora a pique balouçava-se sobre as ondas, prestes a fazer-se de vela, o velho marujo soltava um suspiro ruidoso.

Depois voltava-se para a ladeira da Misericordia, como si contasse ver chegar d'esse lado alguma pessoa, por quem estivesse esperando.

Não se passou muito, que não apontasse no alto da subida um prestito numeroso, o qual seguiu direito á portaria da matriz.

Vinha no centro Maria da Gloria, vestida de noiva, e cercada por um bando de virgens, todas de palma e capella, que iam levar ao altar a sua companheira.

Seguiam-se Ursula, as madrinhas, e outras damas convidadas para a boda, a qual era sem duvida das de maior estrondo que se tinham celebrado até então na cidade de S. Sebastião.

Ayres de Lucena assim o determinára, e de seu bolso concorreu com o cabedal necessario para a maior pompa da ceremonia.

Logo apoz as damas, caminhava o noivo, Antonio de Caminha, entre os dois padrinhos, e no meio de grande cortejo de convidados, dirigido por Duarte de Moraes e Ayres de Lucena.

Ao entrar a portada da igreja, Ayres destacou-se um momento para falar a Bruno, que avistando-o, viera a elle :

— Aprestou-se tudo?

— Tudo, meu capitão.

— Ainda bem; d'aqui a uma hora, partiremos, e para não mais voltar, Bruno.

Ditas estas palavras, Ayres entrou na igreja. O velho marujo que adivinhára quanto soffria n'a quelle momento o seu capitão, ferrou outro murro na carapuça, e tragou o soluço que lhe estava

estortegando na garganta.

Dentro da matriz já os noivos tinham sido conduzidos ao altar, onde os esperava o vigario paramentado para celebrar o casamento, cuja ceremonia logo começou.

O corsario, de joelhos em um dos angulos mais obscuros do corpo da igreja, assistia de longe ao acto; mas de momento a momento acurvava a

(continua...)

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