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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Pode contar com ela. 

O Lemos bamboleou-se na cadeira com sua frenética alacridade e prosseguiu: 

- Trata-se de uma moça, sofrivelmente rica, bonitota, a quem a família deseja casar quanto antes. Desconfiando desses peralvilhos que por aí andam a farejar dotes, e receando que a menina possa de repente enfeitiçar-se por algum dos tais bonifrates, assentou de procurar um moço sisudo, de boa posição, embora seja pobre; porque são justamente os pobres que sabem melhor o valor do dinheiro, e compreendem a necessidade de poupá-lo, em vez de atirá-lo pela janela fora como fazem os filhos dos ricaços. 

Lemos fitou os olhinhos de azougue no semblante do Seixas. 

- Fui encarregado por essa família que me honra com sua amizade de procurar a pessoa que se deseja, e minha presença aqui, neste momento, significa que tive a fortuna de encontrá-la. 

- Sua escolha devia lisonjear-me o amor próprio, se o tivesse, sr. Ramos; porém há de compreender que não posso aceder... 

- Perdão; em negócio tenho o meu sistema. Faço a proposta com lisura, sem omitir os encargos e as vantagens, porque não costumo regatear. O outro pensa, e aceita se lhe convém. 

- Já vejo que é um verdadeiro negócio que me propõe? Observou Fernando com ironia cortês. 

- Sem dúvida! Atestou o velho. Mas ainda não disse tudo. A pequena é rica bastante e dota o marido com cem mil cruzeiros em moeda sonante. 

Como Seixas se calasse: 

- Agora V.S. me dirá se posso levar uma boa decisão? 

- Nenhuma! 

- Como assim? Nem recusa, nem aceita? 

- Sua proposição, sr. Ramos, permita-me esta franqueza, não é séria, disse o moço com a maior urbanidade. 

- Porque razão? 

- Antes de tudo cumpre-me declarar-lhe que estou de algum modo comprometido e embora não haja um ajuste formal, todavia não poderia dispor livremente de mim. 

- Os compromissos rompem-se dum momento para outro. 

- É exato; às vezes ocorrem circunstâncias que desatam as mais solenes obrigações. Mas entre as razões que movem a consciência, não se conta o interesse; ele daria ao arrependimento a feição de uma transação. 

- E o que é a vida, no fim de contas, senão uma contínua transação do homem com o mundo? Exclamou Lemos. 

- Não vejo ainda a vida por esse prisma. Compreendo que um homem sacrifique-se por qualquer motivo nobre, para fazer a felicidade de uma mulher, ou de entes que lhe são caros; mas se o fizer por um preço em moeda, não é sacrifício, mas tráfico. 

O Lemos insistiu com todos os recursos da dialética materialista que ele manejava habilmente. Não conseguiu, porém, desvanecer os escrúpulos do moço que o ouvia com afabilidade, mantendo-se inflexível na negativa. 

- Bom, resumiu o velho. Não são negócios que se resolvem assim de palpite. O sr. Seixas pensará, e se como eu espero decidir-se, me fará o favor de prevenir. Vou deixar-lhe minha morada... 

- Agradeço, mas para esse objeto é inútil, observou Seixas. 

- Ninguém sabe o que pode acontecer! 

O velho escreveu a lápis a rua e o número de sua casa numa folha da carteira que deixou sobre o consolo. 

Meia hora depois, Seixas descia a rua do Ouvidor em busca do hotel de Europa, onde ia almoçar à fidalga, pela volta do meio dia. 

De caminho encontrava os camaradas e conhecidos que o festejavam, pedindo-lhe novas da viagem e dando-lhe as mais frescas da corte. Entre estas figurava a aparição de Aurélia Camargo, que datava de meses, mas era ainda o grande sucesso do mundo fluminense. 

Havia nessa noite teatro lírico. Cantava Lagrange no Rigoletto. Seixas, depois de um exílio de oito meses, não podia faltar ao espetáculo. 

Às oito horas em ponto, com o fino binóculo de marfim na mão esquerda calçada por macia luva de pelica cinzenta, e o elegante sobretudo no braço, subia as escadas do lado par. 

No patamar encontrou Alfredo Moreira com quem de véspera apenas falara de relance no Cassino. 

- Ontem não sei onde te meteste, Seixas, cansei de procurar-te! 

- Pois andava bem perto de ti. É que estavas ontem muito encadeado, respondeu Fernando a sorrir. 

- É verdade! Que mulher, Seixas! Não imaginas. Olhas de longe e vês um anjo de beleza, que te fascina e arrasta a seus pés, ébrio de amor. Quando lhe tocas, não achas senão uma moeda, sob aquele esplendor. Ela não fala; tine como o ouro. Era para apresentar-te que eu te procurei. Ei-la que chega! 

Esta última exclamação, Alfredo soltou-a avistando um carro que nesse momento parara à porta. Efetivamente dele saltou Aurélia, que se dirigiu acompanhada de D. 

Firmina a seu camarote na segunda ordem. 

Envolvia-a desde a cabeça até aos pés um finíssimo e amplo manto de alva caxemira, que apenas descobria-lhe o fino rosto à sombra do capuz e uma orla do vestido azul. 

Era preciso ter a suprema elegância de Aurélia para dentre esse envolto singelo e fofo, desatar o talhe dum garbo encantador. 

Ela parou justo em frente dos dois moços, voltando-lhes as costas, à espera de D. 

Firmina, que se demorara a descer do carro. 

Não é uma beleza? Perguntou Moreira ao camarada, em tom de ser ouvido. 

(continua...)

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