Por José de Alencar (1870)
O vulto do astro se reflete nas águas de um banhado. Entre o céu e a terra flutuam tênues vapores que os raios da lua nova infiltram de uma luz cerúlea e rociada. Sob essa gaza suave e transparente se desdobra, como um lençol, a vasta planície.
Duas vezes durante a noite apeou Manuel para dar fôlego ao brioso animal. A mãe sôfrega por chegar relutava sempre; alongando o pescoço para o horizonte, soltava um relincho penetrante e ansiado.
Na sua impaciência, abandonava por momentos o gaúcho e avançava pelo campo fora. Mas voltava logo arrependida e submissa.
Por que o animal selvagem e livre não corria onde o chamava o instinto com tamanha veemência? Tinha ele necessidade do homem, carecia do auxílio do amigo? ou uma força desconhecida o prendia à vontade superior que o tinha domado?
Quem o pode saber?
Apesar de seu desejo de satisfazer o impulso da baia, Manuel usava da severidade necessária para impedir um esforço que podia ser fatal. Ele sabia que o teor da paixão é sempre o mesmo no homem, como no bruto.
Ao alvorecer, o deserto muda de fisionomia: perde a expressão harmoniosa e suave, para tomar um aspecto agreste. O senho é torvo. Há nas aspérrimas devesas, que irriçam agora o horizonte, traços de um semblante carrancudo.
Já não ondulam docemente, espreguiçando pelo campo em brandos contornos, as lindas colinas que a imaginação pitoresca dos gaúchos chamou coxilhas, ao recordar a curva sedutora da moreninha. Também não se retraem mais com leve depressão os vales macios que semelham o regaço da donzela.
As formas da campanha se convulsam agora. São belas todavia; ainda se percebem alguns contornos maviosos; mas pertencem a um corpo rijo e inteiriçado.
Grupos de pequenos penhascos vestidos de uma vegetação ingrata e sáfara anunciam essa fase do deserto: são como as primeiras enervações da natureza dos pampas. Sucedem algumas rampas áridas incrustadas de grandes seixos dispersos, estilhaços de primitivas explosões. Afinal levantam-se grandes molhos de esguios alcantis, cobrindo a lomba dos cerros, como híspidas cerdas.
Quando atingiu Manuel as orlas crestadas da bronca região, um bando de urubus, vindo de remotos sítios, voava na direção do cerro.
Descobriu-os a égua; soltando um gemido fremente e aflito redobrou de velocidade. No desespero do temor que a arrastava, parecia querer lutar de rapidez com o abutre. Aspirava o ar com sofreguidão, coando no olfato as mínimas emanações trazidas pela brisa. De vez em quando vibrava um henito agudo e estridente, como o rugido da leoa; imediatamente estendia as orelhas para recolher algum tênue som remoto, em resposta ao seu ofegante apelo.
Chegou enfim.
A meio da fragosa encosta havia um largo pedestal de rocha, sobre o qual se erguiam como grupos de colunatas, algumas touças de palmeiras.
Quase ao rés-do-chão abrira o granito uma fenda estreita; dentro via-se alguma relva e plantas que sem dúvida povoavam a caverna. Os urubus piavam, esvoaçando de rama em rama.
Foi aí, que a égua arquejante esbarrou a corrida; não se podendo mais ter sobre os pés caiu de joelhos; metendo o focinho pela fenda, arrancou do peito um clangor inexprimível. Ia de envolta nesse brado o nitrido argentino, que é o grito de júbilo do cavalo com o rincho áspero e brusco, lamento de uma dor súbita.
Não cessava a mãe aflita de farejar o interior da caverna, e lastimar-se ornejando submissamente. Esse primeiro instante foi só do filho, que ali estava, ainda vivo sim, mas prestes a exalar o último alento. Não se lembrou de nada mais; nem dela, nem mesmo do amigo generoso e dedicado que a trouxera. Pouco se demorou porém essa atonia.
Ergueu a fronte e pôs no gaúcho olhos ternos e suplicantes, ao passo que a pata copada e rija batia a fenda da rocha; consolou-a Manuel afagando-a com a mão e o doce murmurejo que falava ao coração materno. Nas farpas da pedra, gretada pela parte interior, estavam grudadas por visgo branco réstias finas e macias de um pêlo alazão: da parte exterior, porém, via-se pelo resbordo, molhos de fios alvacentos.
Levantara-se a Morena e pela rampa íngreme subira ao respaldo do penhasco. Ali estava entre os troncos das palmeiras, sob um arbusto embastido, a cama de folhas e grama, que servira de berço ao filho. Entre o fino capim, sobre a crosta argilosa do rochedo, descobriam olhos vaqueanos o rastro de um casco pequeno e ainda vacilante, a julgar pela leve depressão da terra. Baralhado com este o rastro maior do puma, seguindo um trilho de sangue na direção da selva. Em todo o circuito, desde a fenda até à mata, o chão estava profundamente escarvado pelos cascos da égua.
Para o fundo, o terrado declinava e abrupto sumia-se por funda barranca; era aí o ventre da caverna a que a fenda servia apenas de glote. Acompanhando o movimento do animal que em risco de precipitar-se alongava o pescoço, sondava Manuel as profundezas da gruta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.