Por José de Alencar (1857)
PEDRO - Ora, já está tudo cheio. Na Rua do Ouvidor não se fala de outra coisa.
AZEVEDO - Ah! Quem espalharia? Apenas participei a alguns amigos...
PEDRO - O velho foi logo dizer a todo o mundo. V.Mce. não sabe por quê?
AZEVEDO - Não; por quê?
PEDRO - Porque... Esse velho deve àquela gente toda da Rua do Ouvidor; filha dele gasta muito, credor não quer mais ouvir história e vai embrulhar o homem em papel selado. Então, para acomodar lojista, foi logo contar que estava para casar a filha com sujeito rico, que há de cair com os cobres!
AZEVEDO - Isso é verdade, moleque?
PEDRO - Caixeiro da loja me contou!
AZEVEDO - Mas é infame... Um tal procedimento!... Especular com a minha boa fé!
PEDRO - Sr. Azevedo, não faz idéia. Esse velho, hi!... Tem feito coisas...
AZEVEDO - Vem cá; diz-me o que sabes, e dou-te u a molhadura.
PEDRO - Pedro diz, sim senhor; mesmo que V.Mce. não dê nada. É um homem que ninguém pode aturar... Fala mal de todo o mundo. Caloteiro como ele só. Rapé que toma é de meia cara. Na venda ninguém lhe dá nem um vintém de manteiga. Quando passa na rua, caixeiro, moleque, tudo zomba dele.
AZEVEDO - Um sogro dessa qualidade!... É uma vergonha! Vejo-me obrigado a ir viver na Europa!...
PEDRO - Pedro já vem!... (Vai à porta e volta.) Filha dele, sinhá Henriqueta... Mas Sr. Azevedo vai casar com ela!...
AZEVEDO - Que tem isso? Gosto de conhecer as pessoas com quem tenho de viver.
PEDRO - Pois então, Pedro fala; mas não diga a ninguém.
AZEVEDO - Podes ficar descansado!
PEDRO - Sr. Azevedo acha ela bonita?
AZEVEDO - Acho; por isso é que me caso.
PEDRO - Moça muda muito vista na sala!
AZEVEDO - Que queres dizer?
PEDRO - Modista faz milagre!
AZEVEDO - Então ela não é bem feita de corpo?
PEDRO - Corpo?... Não tem! Aquilo tudo que senhor vê é pano só! Vestido vem acolchoado da casa da Bragaldi; algodão aqui, algodão aqui, algodão aqui! Cinturinha faz suar rapariga dela; uma aperta de lá, outra aperta de cá...
AZEVEDO - Não acredito! Estás aí a pregar-me mentiras.
PEDRO - Mentira! Pedro viu com estes olhos. Um dia de baile ela foi tomar respiração, cordão quebrou; e rapariga, bum: lá estirada. Moça ficou desmaiada no sofá; preta deitando água-decolônia na testa para voltar a si.
AZEVEDO - E tu viste isto?
PEDRO - Vi, sim senhor; Pedro tinha ido levar bouquet que nhanhã Carlotinha mandava. Mas depois viu outra coisa... Um!...
AZEVEDO - Que foi? dize; não me ocultes nada.
PEDRO - Água-de-colônia caiu no rosto e desmanchou reboque branco!...
AZEVEDO - Que diabo de história é esta! Reboque branco?
PEDRO - Ora, senhor não sabe; este pó que mulher deita na cara com pincel. Sinhá Henriqueta tem rosto pintadinho, como ovo de peru; para não aparecer, caia com pó de arroz e essa mistura que cabeleireiro vende.
AZEVEDO - Que mulher, meu Deus! Como um homem vive iludido neste mundo! Aquela candura...
PEDRO - Moça bonita é nhanhã Carlotinha! Essa sim! Não tem cá panos, nem pós! Pezinho de menina; cinturinha bem feitinha; não carece apertar! Sapatinho dela parece brinquedo de boneca. Cabelo muito; não precisa de crescente. Não é como a outra!
AZEVEDO - Então, D. Henriqueta tem o pé grande?
PEDRO (fazendo o gesto) - Isto só! Palmo e meio!. .. Às vezes nhanhã Carlotinha e as amigas zombam deveras! Mas não pergunte a ela, não'? Sinhá velha fica maçada.
AZEVEDO - Não; não me importo com isto; mas vem cá; dize-me, nhanhã Carlotinha não gosta de moço nenhum?
PEDRO - Qual! Zomba deles todos. Esse rapaz, Sr. Alfredo, anda se engraçando, mas perde seu tempo. Homem sério assim, como Sr. Azevedo, é que agrada a ela.
AZEVEDO - Então pensas que...
PEDRO - Pedro não pensa nada! Viu só quando se tomava chá, risozinho faceiro... segredinho baixo...
AZEVEDO (desvanecido) - Não quer dizer nada!... Moças!
CENA XII
Os mesmos e ALFREDO
ALFREDO (na porta da sala, a EDUARDO) - Não se incomode. Boa noite!...
PEDRO (baixo) - Então, Sr. Alfredo!...
ALFREDO - Deixa-me.
PEDRO (baixo) - Está todo emproado!... Como não precisa mais...
AZEVEDO (dando fogo a ALFREDO) - Pedro, amanhã vai à minha casa; tenho uns livros para mandar a Eduardo.
PEDRO - Sim, senhor. A que horas?
AZEVEDO - Depois do almoço.
CENA XIII
ALFREDO, AZEVEDO
ALFREDO - É raro encontrá-lo agora, Sr. Azevedo. Já não aparece nos bailes, nos teatros.
AZEVEDO - Estou-me habituando à existência monótona da família.
ALFREDO - Monótona?
AZEVEDO - Sim. Um piano que toca, duas ou três moças que falam de modas; alguns velhos que dissertam sobre a carestia dos gêneros alimentícios e a diminuição do peso do pão, eis um verdadeiro tableau de família no Rio de Janeiro. Se fosse pintor faria um
primeiro prix au Conservatoire des Arts.
ALFREDO - E havia de ser um belo quadro, estou certo; mais belo sem dúvida do que uma cena de salão.
AZEVEDO - Ora, meu caro, no salão tudo é vida; enquanto que aqui, se não fosse essa menina que realmente é espirituosa, D. Carlotinha, que faríamos, senão dormir e abrir a boca?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.