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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— Digo que vi ontem um quadro deste gênero, que eu não trocaria por todas as tuas pinturas! Era uma mulher; mas as formas palpitavam; a carne latejava sob os olhos que a devoravam; os lábios comiam de beijos a vítima que eles provocavam; e entre a cútis transparente corria o sangue, que se precipitava do coração espadanando em cascatas! 

 

— Sublime! A descrição é digna do quadro... que eu não vi! disse o Rochinha. 

 

— Onde descobriste essa maravilha? 

 

— É meu segredo. 

 

— Nem se pode saber o nome do artista, Sr. Silva? 

 

— Não adivinharam ainda! 

 

— Será Rafael? 

 

— É um Ticiano póstumo! 

— Ou algum gênio desconhecido? 

 

— Enganaram-se: é um artista de todos os tempos e de todos os países; é o artista divino que fez as flores, as estrelas e as mulheres! 

 

— Ah! neste gênero de pintura tenho visto o melhor que é possível! 

 

— Eu aposto, disse Lúcia, que o Sr. Silva, como os poetas, embelezou o seu quadro. Viu o que sentia; mas não o que era. 

 

— Que importa! É outra ilusão minha que desejo guardar! 

 

— Talvez não a guarde por muito tempo... 

 

— Pois, meus senhores, continuou Sá, mostrando-lhes estas pinturas, preparei-lhes uma agradável surpresa. É nada menos que o original delas; não o original frio e calmo, mas um verdadeiro modelo, vivendo, palpitando, sorrindo, esculpindo em carne todas as paixões que deviam ferver no coração daquelas mulheres. 

 

— Onde está ele? 

 

— Lúcia vai mostrar-nos. 

 

— Ah!... 

 

— Magnífico! 

 

— Que maçada! Esqueci o meu pince-nez, disse o Rochinha. 

 

— Estás pronta, Lúcia? 

 

Ela ergueu-se, circulando a mesa com o olhar ardente e fascinado. 

 

— Tu não farás isto, Lúcia! disse-lhe eu à meia voz. 

 

Dobrando como uma palma flexível o seu talhe esbelto, atirou-me ao ouvido uma palavra, que vazou no meu cérebro e correu-me pela medula dos ossos, como gota de metal em fusão. 

 

— É preciso pagar a conta da ceia! 

 

Travei-lhe da mão: 

 

— Eu te suplico. 

 

O seu corpo oscilou; caiu inerte sobre a cadeira. 

 

— Que é isso? exclamou Sá. Tens vergonha de Paulo? É a única pessoa demais que está hoje aqui. 

 

— Ah! não é a primeira vez? perguntei empalidecendo. 

 

— Será a primeira vez que copiará estes quadros, pois não há oito dias que os comprei; mas Lúcia não precisa de modelos, e já nos mostrou, não uma, porém muitas noites, que tem, com a beleza dos anjos, o gênio da estatuária. Não é verdade, meus senhores? 

 

— Bem vês, Sá, que a honra não é para todos. Sou indigno dela! disse eu. 

 

— O que me está parecendo é que Lúcia quer apaixonar-te. 

 

Soltei uma gargalhada. 

 

— Perde o seu tempo! A mim? 

 

Lúcia ergueu a cabeça com orgulho satânico, e levantando-se de um salto, agarrou uma garrafa de champanha, quase cheia. Quando a pousou sobre a mesa, todo o vinho tinha-lhe passado pelos lábios, onde a espuma fervilhava ainda. Ouvi o rugido da seda; diante de meus olhos deslumbrados passou a divina aparição que admirara na véspera. 

 

Lúcia saltava sobre a mesa. Arrancando uma palma de um dos jarros de flores, trançou-a nos cabelos, coroando-se de verbena, como as virgens gregas. Depois agitando as longas tranças negras, que se enroscaram quais serpes vivas, retraiu os rins num requebro sensual, arqueou os braços e começou a imitar uma a uma as lascivas pinturas; mas a imitar com a posição, com o gesto, com a sensação do gozo voluptuoso que lhe estremecia o corpo, com a voz que expirava no flébil suspiro e no beijo soluçante, com a palavra trêmula que borbulhava dos lábios no delíquio do êxtase amoroso. 

 

Deviam de ser sublimes de beleza e sensualidade esses quadros vivos, que se sucediam rápidos; porque até as mulheres aplaudiam com entusiasmo e frenesi. Revoltou-me tanto cinismo; ergui-me da mesa. 

 

— Que é isso? Não admiras? O que viste era mais perfeito! 

 

— Não por certo!... Estes quadros são mais expressivos e naturais! São sublimes de verdade! Porém sinto-me sufocado pela atmosfera desta sala; preciso de ar. 

 

Abri a porta que dava para o jardim, e saí. 

VIII 

 

Não sou dos felizes, que conservam a virgindade d'alma, e levam à santa comunhão do casamento a pureza e castidade das emoções. Bem cedo ainda senti murchar a bonina delicada do coração; e afoguei a minha ignorância nos gozos rapidamente fruídos e brevemente olvidados. 

 

Há porém na febre dos sentidos uma união íntima da matéria, unissonância de desejos e repercussão instantânea do prazer, que opera a transfusão mística da palavra santa. O homem e a mulher são a possessão mútua — una caro, a carne única, onde vivem duas almas que nada vêem, porque só vêem a si. 

 

Compreenda agora por que a bacante ficou fria e gelada para mim, na sua ardente lascívia. A mulher que com 

seus encantos cevava outros olhos que não os meus, a estátua animada de desejos que eu não havia excitado, em vez de provocar em mim a admiração, indignou-me. Tive vergonha e asco, eu, que na véspera apertara com delírio nos meus braços essa mesma cortesã, menos bela ainda e menos deslumbrante, do que agora na sua fulgurante impudência. 

 

(continua...)

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