Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)
Adriano – Celestina! Celestina! Eis aqui como são as mulheres! Deitam-nos sempre água na fervura.
Felisberto – Ainda eu!
Adriano – Senhor Felisberto, eu lhe rogo que para outra vez se faça anunciar; não se entra na casa de um homem da minha hierarquia, como aí na espelunca de qualquer...
Felisberto – Perdão! Mil vezes perdão: porém, um negócio da maior
transcendência... (Enquanto Adriano procura uma cadeira e senta-se, diz Felisberto à parte) Tenho presentemente a certeza de que esta casa se acha no alinhamento da rua projetada, e portanto ela me é necessária por todo preço.
Adriano (Sentado) – Então que temos?...
Felisberto – Senhor Adriano, Vossa Senhoria me faz um grande mal.
Adriano – Deveras?...
Felisberto – Sim: acabo de sair da casa do senhor Pantaleão, que me assegurou ter vendido esta propriedade a Vossa Senhoria.
Adriano – É certo; e que mais?...
Felisberto – Mas é que Vossa Senhoria não sabe, que eu tenho absoluta necessidade desta casa: eu a desejo ardentemente... certas recordações de família...
Adriano – Sim... sim... tudo isso é muito possível; mas também eu tenho aqui minhas recordações, e portanto conservarei a propriedade.
Felisberto – Quê! Pois Vossa Senhoria não quereria ceder-ma!
Adriano – O que há de ser! Veio-me o desejo de representar o papel de proprietário: despediram-me tantas vezes de casas onde morava, que tenho vontade de pôr também os outros no meio da rua; é mais agradável ter inquilinos do que sê-lo; e olhe, não se pode aturar inquilinos! Põem um homem doido... não pagam ao senhorio!
Felisberto – E se eu desse por esta casa quatorze contes de réis?...
Adriano – Quatorze contos?... o que são nesta vida quatorze contos de réis?...
Felisberto – Oh! É dinheiro, que se custa a ganhar!...
– Ah! ah! ah!... a quem diz o senhor isso?...
Felisberto – Está bem, darei dezesseis contos à vista...
Adriano – Dezesseis contos!... (À parte) É verdade que todos me falam de milhões, que eu possuo, mas confesso, que não me desagradaria ter já e quanto antes alguns bilhetes do banco no bolso... (A FELISBERTO) – Pois bem.... quero ser condescendente... aceito.
Felisberto – Dentro em meia hora trago-lhe o dinheiro; é negócio concluído.
Adriano – Eu lhe dou a minha palavra... também... olhe: por ora é a única coisa que eu tenho para dar.
Felisberto – Ela me basta, honrado amigo.
CENA XIII
Celestina, Adriano e Beatriz. – Celestina recua, ficando Adriano de joelhos aos pés de Beatriz
Adriano - (De joelhos e com os olhos baixos) – E eu cairei aos seus pés pedindo-lhe o meu perdão, e lhe direi: Tu que és bela como um anjo, pura como um raio de sol, meiga como a pombinha do vale, perdoa-me!... esqueci por um instante que tu eras cheia de graças, e se sentimentos nobres, e que só querias, antes de tudo, um nome, o nome daquele a quem amas... oh! Bem... eu te ofereço o meu nome e a minha mão! (Toma a mão de Beatriz e beija-a) Ah! tu me perdoas!... (Levanta a cabeça) Ora... e esta! Com que estava eu falando!... (Vê CELESTINA) Ah! tu estás aí!
Celestina – E te compreendi bastante, Adriano.
Beatriz – E eu também, senhor Adriano, e se não fosse tão escrupulosa já teria abraçado a Vossa Senhoria excelentíssima! (À parte) Nunca ouvi tantas ternuras do meu defunto Pancrácio.
Adriano (Mostrando o relógio) – Minha Celestina, eu adivinhei tudo!
Beatriz – Consegui retê-la no meu quarto: suas lágrimas puseram-me o coração em cinco pedaços, e como sei por experiência própria que os namorados brigam e fazem as pazes trinta vezes por dia...
Adriano – Mas agora, Celestina, tu me desprezas?
Celestina – Não, não, meu amigo, tudo está esquecido.
Adriano – Eu te desposo, minha Celestina, e a felicidade entrará em nossa casa com o ato do nosso casamento.
Celestina – E ficará para sempre morando conosco.
Beatriz (Limpando os olhos) – E eu ainda a chorar... vejam só! E isto me fazia esquecer, que hoje o excelentíssimo senhor meu amo tem sido procurado por toda a cidade em peso: tenho lá dentro um balaio cheio de cartas e bilhetes de visita: eu vou buscar. (Entra e volta logo)
Adriano – Que nova miséria será esta?...
Celestina – Não é miséria, Adriano; são os milagres do dinheiro, que é o senhor onipotente de quase todos.
Beatriz (Trazendo um balaio cheio de cartas e bilhetes) – Eis aqui as provas de que Vossa Senhoria excelentíssima tem a seu favor a opinião pública.
Adriano – Vejamos: misericórdia! Um balaio de cartas e de bilhetes de visitas!... Oh! Dinheiro! Oh! Miséria da humanidade!... ora, comecemos pelas cartas: (Tira uma e lê) oh! A primeira é do tal editor, que rejeitou minhas músicas: (Lê) miserável! Vê, Celestina, agora, agora ele me envia uma escritura, pela qual se obriga a imprimir pelo preço que pedi as mesmas composições que ontem rejeitava, sob pena de uma indenização de um conto de réis pago por aquele que se arrepender!...
Celestina – Que ventura! Tuas composições vão, portanto, aparecer! Tu vais ser conhecido... todos te vão aplaudir, e te fazer justiça.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O Primo da Califórnia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16670 . Acesso em: 6 jan. 2026.