Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Vencido na luta, e perdida a esperança de estabelecer-se na Igreja da Candelária, o Cabido acolheu-se a pesar seu na de Nossa Senhora do Rosário.
A prova do pesar do Cabido é dada pelo Monsenhor Pizarro, que em suas Memórias repete sem caridade a queixa do forçado e inevitável contato com os pretinhos, aliás seus e nossos irmãos em Deus.
Mas o governo da Metrópole (reinado de D. João V), aprovando o plano apresentado, mandou construir nova igreja para Sé do Rio de Janeiro, e o Governador Gomes Freire de Andrade, o bispo, e o engenheiro diretor das obras de acordo escolheram para o templo lugar no Campo do Rosário a curta distância da Rua da Vala, defronte da extrema imposta à Rua do Padre Homem da Costa.
No assinalado histórico dia aniversário, 20 de janeiro de 1749, foi lançada com aparatosa solenidade a primeira pedra da Sé nova, cujos alicerces e grossas paredes haviam de servir não para ela, vic vos nos vobis, mas para o edifício de que é última herdeira a Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
Para o solene lançamento da primeira pedra limpara-se, aterrara-se em alguns pontos, e todo se igualara o terreno fronteiro à futura igreja, o qual, ou no mesmo dia 20 de janeiro, ou pouco depois, recebeu a denominação de Largo da Sé Nova.
E então a Rua do Padre Homem da Costa, vendo um largo aberto no campo do logradouro público, usou do seu bom direito, saltando a vala, e estendendo ou continuando suas duas filas de casas até abrir-se no Largo da Sé Nova.
As obras da Sé, que ficaram em provérbio popular perpetuadas, após ativo ardor dos primeiros meses, caíram em desalento, e ora interrompidas, por faltar azeite à lâmpada, ora continuadas muito preguiçosamente, chegaram por isso a excitar o ridículo que feriu a negligência e a desídia do governo com aquele provérbio fulminador das obras em que se consome o dinheiro público e nunca chegam ao fim.
Mais afortunada que a Sé, a Igreja de S. Francisco de Paula, começada a construir-se em 1759 (dez anos depois daquela) no mesmo largo, em 1801 já estava acabada pelos seus Mínimos, que assim deram quinau aos máximos do governo, e em prêmio do seu zelo o povo mudou o nome do largo, que ficou sendo chamado de S. Francisco de Paula.
A Rua do Padre Homem da Costa desde 1749 não teve mais prolongamento a aspirar; ainda, porém, era cedo para as glórias que a esperavam com outro nome.
De 1770 a 1791 a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro se transformou como por metamorfose rápida. Era feia lagarta, e o Vice-Rei Marquês de Lavradio fez sair do casulo a borboleta, asseando, calçando as ruas e praças, abrindo novas ruas, banindo as rudes peneiras das portas e janelas, e removendo para longe dos centros urbanos a aglomeração pestífera dos míseros negros trazidos da África para imundos recintos de mercado de escravos.
O Vice-Rei Luís de Vasconcelos, achando a borboleta fora do casulo e a ensaiar as asas de seda, deu-lhe água e flores em chafarizes, na Fonte das Marrecas, e no Jardim Público, e deu ainda à cidade novas ruas, uma das quais foi a das Belas Noites, então a romanesca das noites de luar crescente e pleno.
A Rua do Padre Homem da Costa não recebeu nesses vinte e um anos de florescimento na cidade melhoramento algum, à exceção do banimento das peneiras que a afeavam, como as outras; dois anos porém, depois do começo do vice-reinado de Luís de Vasconcelos, perdeu o nome que lhe tinham dado em 1659.
Escapara à denominação de Rua do Lobisomem no vice-reinado do Conde da Cunha, e como se vai ver, escapou de outras que lhe quiseram dar, para denominar-se Rua do Ouvidor.
O Marquês de Lavradio, o Vice-Rei estadista, era varão de alto saber, de grande experiência e de virtudes; tinha, porém, a fraqueza de Henrique IV, e pecou não pouco por apaixonado do belo sexo. No seu tempo o doido Romualdo dizia que o vice-rei limpava as ruas e sujava as casas.
O ilustre Marquês estava muito longe de ser ostentoso, delirante e corrompido perversor, como fora o ajudante da sala do Conde da Cunha; foi, porém, conquistador famoso, e teve ligações amorosas que o prenderam muito, e amores furtivos e passageiros que autorizaram o mordaz epigrama do doido Romualdo.
A princípio, e a supor-se cauto, ele dissimulou suas fraquezas de um modo singular e espirituoso.
O Marquês adotara o costume de sair sob diversos disfarces depois das dez horas da noite em passeio pela cidade para zelar a polícia e ver com os seus olhos o que se passava, e ouvir com os seus ouvidos o que se dizia.
Em suas rondas ou passeios levava ele sempre por companheiro único um oficial de milícias, o Tenente João Moreira, conhecido pela alcunha de Amotinado pelos fáceis arrebatamentos de seu gênio ardente e desordeiro.
O Tenente Amotinado era de prodigiosa força, de ânimo inflamável e talvez o mais antigo capoeira do Rio de Janeiro, Jogando perfeitamente a espada, a faca, o pau e ainda e até de preferência a cabeçada e os golpes com os pés.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.