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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Anastácio — Maurício! Qual! Deixaram-me por amor dos barões Mirins! Perdi a minha retórica, e está decidido que meu irmão precisa receber uma lição amarga e rude. Desgraçados! Debatendo-se já no fundo do abismo, e tão cegos e tão vaidosos ainda! Oh! é esta sociedade envenenada e corrupta que estraga todos os corações! É esta sociedade que deixando-se escravizar pela paixão do luxo, sacrifica todos os sentimentos e todas as considerações ao ouro; devorada por esta paixão funesta, prefere o ouro à sabedoria, o ouro à honra, o ouro à virtude! É ela que despreza o vestidinho branco da senhora pobre, mas honesta, pelas sedas e pelos veludos das grandes libertinas! É ela que ensina a abafar o pudor, e a menosprezar a própria reputação para satisfazer a paixão do luxo...sim! é uma sociedade depravada, que zomba e ri da consciência, da lealdade, da justiça, da pátria, de Deus, e que violenta se arroja pela estrada da desmoralização, tendo na mente uma única idéia — ouro! ouro! ouro! — (Vendo Petit) Que fazes tu aqui?...estavas ouvindo o que eu dizia, não?...

Petit — Oh! non pode ser; eu non entende português.

Anastácio — Que temos então?...

Petit — Um cavaleire comme il faut quer fala com monsieur Anastace palavra particular.

Anastácio — Conduze-o para esta sala. (Vai-se Petit) Quem será?...uma palavra particular?...não tenho negócios na corte, e mesmo já perdi as minhas antigas relações. Sou inimigo de segredos e de mistérios; gosto da franqueza, que é a arma do justo, e me acho de muito mau humor para sofrer segredinhos de homem. Diabo!...deixem o cochichar para as senhoras que gostam de falar com a boca fechada.

CENA V Anastácio e Henrique.

Anastácio — Henrique!...tu aqui?...

Henrique — É verdade, mas meu tio; desde ontem que vossa mercê não aparece, e eu precisava absolutamente falar-lhe. Foi necessário que se desse uma circunstância bem grave para que eu ousasse entrar nesta casa.

Anastácio — Pois então senta-te. (Senta-se)

Henrique — Não, meu tio; falarei de pé e depressa, porque devo retirar-me antes que me encontrem aqui, e que me lancem para fora.

Anastácio — Lançarem-te para fora?! E não vês que sairiam dois ao mesmo tempo?...

Henrique — Embora, ou ainda por essa razão.

Anastácio — Nesse caso fala de pé; mas eu fico sentado.

Henrique — Meu tio, desde ontem que se prepara uma trama infernal contra minha infeliz prima...

Anastácio — Eu logo adivinhei que tua prima entrava na história.

Henrique — Trata-se nada menos que de perpetrar um rapto...

Anastácio (De pé) — E a vítima?...quem é?...

Henrique — Minha prima.

Anastácio — Leonina?...será possível!...(Outro tom e sentando-se) Vamos adiante; continua.

Henrique — A vítima deve, pois, ser minha prima...Ouviu, meu tio? Leonina...minha prima...

Anastácio — Sim, tua prima; ouvi perfeitamente.

Henrique — E pode estar ouvindo com essa frieza?...

Anastácio — Henrique, em regra geral nunca se furta uma moça senão quando ela se deixa furtar.

Henrique — E então...

Anastácio — E então, quem não é seu pai, nem sua mãe, e apenas seu namorado, deixa-a ir com o raptor, que por fim de contas é o mais enganado, porque julgando levar consigo um tesouro precioso, apenas carrega às costas um saco de moeda falsa.

Henrique — Mas é que meu tio ignora as circunstâncias...

Anastácio — Pois vamos a elas.

Henrique — No baile de máscaras, que vai dar-se na chácara de meus tios, às duas horas da noite, Leonina será atraída para um caramanchão, que fica junto de uma rua deserta; aí dois máscaras atirar-se-ão sobre a infeliz, abafarão seus gritos e arrastando-a para uma carruagem, que está perto, um dos máscaras desaparecerá com ela.

Anastácio — E esses máscaras serão uma mulher perversa e um homem libertino:

Fabiana e Frederico, não é assim?...

Henrique — Exatamente: mas quem lho disse?

Anastácio — Eu o tinha previsto...Miserável!...Como descobriste este segredo?...

Henrique — Surpreendi-o, quando me deixou oculto atrás dos bambus, no Jardim Botânico; surpreendi-o, e oportunamente me ofereci à filha de Dona Fabiana, que pedia à sua boa fortuna um cúmplice, que impedisse a realização do rapto ao tempo em que o escândalo fosse já bastante para manchar o crédito de Leonina.

Anastácio — Tens em tuas mãos os fios dessa trama criminosa: qual é o teu

propósito?...

Henrique — Vim consultá-lo sobre isso. No meu pensamento brilhou a idéia de uma nobre vingança; lembrou-me que podia abater a soberba de meus tios, forçando-os a reconhecer-se devedores da salvação de sua filha a aquele que tão indignamente desprezaram...

Anastácio — Pobre plebeu! Haviam de dizer-te que às vezes também um náufrago pode ficar devendo a vida a um cão da Terra Nova.

(continua...)

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