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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Furtado observou, então, limpando o bigode, que na sala estava mais fresco.

— Vamos, desembargador... Ó Evaristo, dá o braço à D. Rosa.

D. Rosa era a mulher do Loiola. O bacharel, estranho a etiquetas, muito filósofo, como dizia o secretário, deu dois passos à frente e recebeu amavelmente a mulher do tesoureiro.

— Muito obrigada, Sr. Evaristo, muito obrigada! - repetiu a gorda matrona. — Oh, minha senhora...

E, em procissão, desfilaram os convivas pelo corredor. No alto da escada do segundo andar ocultou-se, rápida, uma sombra de mulher. Instintivamente o desembargador ergueu os olhos, baixando-os logo.

Furtado ia na frente, guiando os amigos, de braço com a ilustre dama de Sua Majestade a Imperatriz.

Agora é que a sala de visitas tinha um aspecto nobre e luxuoso, ao reflexo das serpentinas e do grande candelabro de cristal pendente do teto. Quadros e bibelôs, o piano e a mobília, o espelho de primeira ordem, rodeado de arabescos, a estante de música, as tapeçarias, as cortinas, o papel do forro, tudo resplendia e dava uns tons de alta nobreza ao conjunto.

Adelaide, sempre tímida, vinha de braço com um dos rapazes do comércio.

Sentaram-se todos, rindo, palrando, o tesoureiro com a face congestionada, a mulher idem, ambos muito gordos; a mulher do desembargador com o seu ar indefectível de nobreza pouco comunicativa, querendo parecer mais moça do que na realidade era, assestava de vez em quando o lorgnon de tartaruga, que pendia-lhe de um correntão de ouro, e punha-se a observar uma estampa do imperador, que havia na sala, entre dois consolos, enquanto o velho Lousada falava com a viúva Tourinho acerca dos últimos incômodos do monarca; o secretário instalara-se entre Adelaide e D. Branca e respondia prontamente às perguntas que lhe faziam, ora um dos rapazes, ora D. Sinhá, ora o tesoureiro do Banco, ora o próprio desembargador, interrompendo a conversa com a Tourinho, e volvia-se freqüentemente para a esposa de Evaristo. O bacharel divertia-se a gabar os trajos de Raul, dando-lhe palmadinhas no ombro.

E pouco a pouco ia-se tornando maior a familiaridade.

— E o Santa Quitéria? — lembrou Furtado com ar de desgosto. Ele, que é um dos meus bons amigos, faltar ao batizado de minha filha!

— E o Dr. Condicional? — saltou Evaristo. — Ainda ontem disse-me que vinha.

— Faltaram todos: o Santa Quitéria, o Pinto, comendador, o Condicional, o Xavier... todos, enfim!

— Todos não! — protestou o velho Lousada, sorrindo —eu aqui estou com minha mulher...

— O desembargador é gente nossa, é de casa — emendou Furtado.

— E eu também sou de casa? — perguntou maliciosamente a viúva.

— V. Exa., com a sua bondade, é de todo o mundo!

— Alto lá, meu amiguinho! — sorriu a boa senhora. — De todo mundo é que não.

E quis saber o que é que o Sr. Furtado entendia por todo o mundo.

Furtado explicou-se razoavelmente.

Nisso pára um carro à porta. Todos os olhares volveram-se para a entrada da sala. D. Branca e o secretário ergueram-se. Mas, antes que se aproximassem da escada, já o Raul anunciava indiscretamente que "era o Dr. Condicional!"

— Oh, o Manhães! — acudiu Furtado.

— Eu mesmo, caro amigo, eu mesmo. Venho dar-lhe os parabéns pelo glorioso dia!

Movimento nas cadeiras; leve sussurro.

— Ah, esse é que é o autor do Juca Pirão?—- fez um dos rapazes do comércio.

— Sei que não vim de bonne heure... — tornou o literato dirigindo-se para o grupo, consertando a sobrecasaca. — Em todo o caso, antes tarde que nunca!...

Apresentações, cumprimentos, e o Dr. Condicional, dando jeito ao pincenê, sentou-se. Trazia um grande buquê de violetas na lapela.

Novo carro parou quase imediatamente. Furtado, que se ia acomodando, ergueu-se outra vez. Outra vez o Raul adiantou-se para anunciar, agora com toda a discrição e respeito, "o Sr. visconde de Santa Quitéria!".

— Oh!

A exclamação foi geral.

— O visconde de Santa Quitéria!

— Logo vi que não faltava! — disse Furtado.

E D. Branca teve um movimentozinho de surpresa muito especial, exclamando também: — Oh!

Era, com efeito, o visconde de Santa Quitéria, o grande capitalista, diretor do Banco Luso-Brasileiro.

Bem que todos tinham ouvido parar um carro!

Pelo menos naquele instante, ninguém se lembrou do ilustre poeta que acabava de entrar. A chegada do visconde enchia a todos de surpresa e de alta consideração. Entre a poesia e o capital - preferia-se o capital, tanto mais quanto o diretor do Banco Luso não representava simplesmente um capitalzinho de alguns mil-réis. Não. O Santa Quitéria tinha fortuna para mais de seis mil contos!.

O ilustre personagem estacou à porta, fez um cumprimento geral com a cabeça e entrou, muito correto, admirável de mocidade e de frescura. D. Branca recebeu-o no meio da sala com o mais belo dos seus sorrisos.

(continua...)

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