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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. Prontas sempre a repelir com dignidade um ataque à sua honestidade, elas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com a mesma simplicidade com que o fazem às amigas. O respeito entre os dois sexos, nas classes superiores, é um dos principais caracteres do povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns e outros em comum desde criança, as americanas não se confundem nunca diante dos homens.

Nos Estados Unidos o belo sexo é respeitado como em parte alguma.

Os pais depositam confiança ilimitada nas filhas. Deixam, sem escrúpulo, que elas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em companhia de um amigo da casa, na certeza de que elas saberão zelar a sua castidade.

Os raptos e os defloramentos são raros, não sei se devido ao temperamento da raça ou se à inflexibilidade da Lei. O que sei é que, se um rapaz gosta de uma rapariga de família reconhecidamente honesta, não tem mais do que namorá-la escandalosamente às barbas de quem quer que seja, à vista do mundo inteiro, beijála sem cerimônia, como se fossem irmãos, e, daí a pouco, ei-los casadinhos de fresco, bras dessus, bras dessous.

E ai! daquele que violar os preceitos decretados pelo governo! Imediatamente vê-se dentro deste triângulo medonho: o casamento, o dote, ou a cadeia. A Lei é inexorável e a polícia exerce uma vigilância sem igual.

Informados de tais particularidades do caráter americano, nós, brasileiros, pusemos um dique ao nosso temperamento de meridionais, evitando o mais possível os compromissos amorosos, as manifestações de simpatia por essas adoráveis ladies, que, a falar verdade, infligiam-nos os maiores suplícios com o maravilhoso poder de suas qualidades físicas.

Tântalos do coração, éramos obrigados a conter os ímpetos ferozes da carne que nos aguilhoava implacavelmente no delicioso convívio das louras misses e das ternas créoles.

Estão verdes, não prestam — era a nossa divisa e destarte escapávamos sempre aos ataques de tão perigoso inimigo.

CAPÍTULO IX

O dia 14 de abril (deixem passar a precisão cronológica) estava destinado pelo comandante do Barroso para uma excursão fluvial, científica, à foz do Mississipi, onde iríamos observar de visu os importantes trabalhos hidráulicos, que aí se procediam sob a inteligente direção do notável engenheiro americano Mr. Jas.

B. Eads, um velho respeitável, encanecido no serviço da engenharia, e cujo nome está ligado a muitas obras notáveis de seu país.

Às onze horas da noite a barca de passeio Keokuk largou de Nova Orleans, rio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns oficiais e o comandante, com destino às Jetties.

Uma excelente embarcação a Keokuk, espécie de pequena cidade flutuante, muito larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões aos vapores da Companhia Brasileira. Três pavimentos: o superior, coberto por um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar à vontade; o do meio formando um salão-refeitório, ao lado do qual ficavam os camarotes e o porão, para mercadorias; rodas à popa, sistema de locomoção que não conhecíamos; duas chaminés, e máquina possante. Em semelhantes condições éramos capazes de fazer a volta do mundo em oitenta dias...

Passamos à noite sobre o rio, navegando à meia força, ao sabor da correnteza.

Lá íamos outra vez para a região dos mosquitos! Preparamo-nos para dar quixotesca batalha, apesar da falta impreenchível do nosso querido companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo, o impagável espanhol que tanto nos divertira na caça aos mosquitos.

Pela manhã, cedinho, estávamos em Port-Eads, defronte do escritório central do respeitável engenheiro.

Café, biscoitos..., e desembarcamos.

O bom velho já nos esperava com o seu belo ar de urso doméstico, barba muito branca, de barrete e óculos, entre os seus mapas coloridos e os seus prospectos representando steamers e as jetties.

— Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empresa há tantos anos iniciada sob minha direção, disse ele com um amável sorriso de bonomia patriarcal.

E começou a desenrolar diante de nossos olhos uma série infindável de cartas hidrográficas, mapas, desenhos.

Vale a pena se admirar essa obra monumental.

Tratava-se de cavar o leito do rio, num dos braços de sua foz, por modo a efetuar-se a navegação livremente, na linha da correnteza, e terem entrada embarcações de grande calado, desenvolvendo-se assim o já notável comércio de Nova Orleans. Com esses trabalhos o porto irá melhorando consideravelmente, sendo para notar o grande movimento de navios que entram e saem durante o dia.

O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegáveis que os americanos dia a dia tratam de aproveitar dando saída a inúmeros produtos do fertilíssimo vale do Mississipi, o qual abrange cerca de 768.000.000 jeiras das mais ricas terras do mundo, como eles lá dizem. Sua embocadura é, portanto, a passagem natural de todos aqueles produtos.

(continua...)

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