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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

As revelações da Matraca sobre o namoro do Trilho de Ferro deram que falar à cidade inteira. Nas rodas de calçada o fato propalou-se imediatamente à guisa de escândalo. A princípio ninguém sabia ao certo qual era a tal “normalista ex-irmã de caridade”. Que havia de ser a Lídia Campelo afirmavam uns. Mas a Campelinho nunca fora religiosa quanto mais freira. Afinal sempre se veio a saber a verdade e espalhou-se logo que a afilhada do João da Mata estava com um namoro pulha mais o estudante. Não era Lídia mas dava no mesmo, dizia-se: ambas estudavam na mesma escola, eram dignas uma da outra.

E toda a gente dizia sua pilhéria, atirava seu conceito à boca pequena, com risadinhas sublinhadas — pilhérias e conceitos que chegavam até aos ouvidos do coronel Souza Nunes, percucientes, incisivos como ferroadas de maribondos. “— Não era possível, pensava ele. O Zuza era incapaz de semelhante criancice; um rapaz de certa categoria não se deixa iludir por uma simples normalista sem eira nem ramo de figueira, uma rapariga sem juízo, filha de pais incógnitos, educada em casa dum amanuense reles. Quem, o Zuza? Pois não viram logo a monstruosidade do absurdo? Era uma calúnia levantada a seu filho. Que esta! Não faltava mais nada senão ver o nome do rapaz em letra redonda estampado na Matraca, um jornaleco imundo como uma cloaca!”

Morava na rua Formosa, numa casa assobradada e vistosa com frontaria de azulejos, varandas, e dois ananases de louça no alto da cimalha, à velha moda portuguesa.

O coronel gostava de passar bem, de “fazer figura”, e, até certo ponto, revelava uma natureza delicada que não era indiferente ao aspecto exterior das coisas; sabia mesmo aquilatar objetos de arte, escolher bric-à-bracs. No que respeita a asseio ninguém o excedia. Era o que se pode chamar “um homem de bons costumes”, um pouco orgulhoso e duma susceptibilidade a toda prova em matéria de dignidade pessoal: irrepreensível e caprichoso na intimidade doméstica como na vida pública.

Fazia gosto a sala de visitas, forrada a papel-veludo claro com ramagens cinzentas, mobiliada com inexcedível graça, sem ostentação, sem luxo, mas onde se notava logo certa correção no arranjo dos móveis, na colocação dos quadros, na limpidez dos cristais.

Ao fundo, entre as duas portas altas e esguias que diziam para o interior da casa, ficava o piano, um Pleyel novo, muito lustroso, sempre mudo, sobre o qual assentavam estatuetas de biscuit. À direita, descansando sobre grandes pregos dourados, o retrato a óleo do coronel com a sua barba em ponta, olhava para o piano, muito sério, em simetria com o da esposa.

O corredor da entrada separava a sala de visitas do gabinete do Zuza que ficava à esquerda. — “Não faltava mais nada!” repetia mentalmente o coronel, estendido na espreguiçadeira de lona, pernas trançadas, defronte da varanda, aparando as unhas.

Em casa usava calças brancas, paletó de seda amarelo e sapatos de entrada baixa com flores no rosto de lã.

Era hora do almoço, o Zuza não devia tardar. Ia falar-lhe decididamente; aquela história do namoro não lhe cheirava bem. Talvez o filho tivesse mesmo a estroinice pueril de desfrutar a rapariga.

Daí a pouco entrou o estudante. Vinha muito jovial, cantarolando o Bocácio:

Se acaso algum de nós

tiver por sina atroz

mulher que se não cale

que a toda hora fale...

E repetia muito alegre:

— Trá lá lá lá... trá lá lá lá...

— Vens muito alegre, hein, meu filho? interrompeu o coronel da sala.

Zuza tinha entrado para o gabinete e começava a despir-se.

— Ah! meu pai estava aí?

E logo:

— Trago uma novidade.

— Vejamos...

— Vou a Baturité com o presidente.

— Ainda bem, ainda bem... fez o coronel num tom desusado, sem erguer a cabeça.

— Como ainda bem? inquiriu o estudante aproximando-se.

Apenas trocara o fraque por um paletó de brim branco.

— Porque... porque... Eu precisava mesmo falar-te. Ora, dize, uma coisa: leste o último número da Matraca?

Zuza franziu os sobrolhos desconfiado, com um risinho seco. — “Não tinha lido a Matraca, não. Um jornaleco imoral que andava por aí? Não, não tinha lido. Por quê?”

— Que história é uma de namoro no Trilho de Ferro? Fala-se em ti, no teu nome, numa normalista...

Cresceu o assombro do rapaz.

— Eu?!... Meu pai está gracejando...

— Juro-te que não. Mas olha, quem diz é a Matraca e alguém afirmou-me particularmente que a rua está cheia...

— E esta! fez o Zuza cruzando os braços admirado. Pois meu pai não vê logo que isto é um gracejo de mau gosto, um canalhismo de província?

— O que é certo é que não te fica bem a brincadeira.

— Absolutamente não, e eu preciso saber quem é o autor do pasquim...

A criada avisou que o almoço estava na mesa.

— ...Sim, continuou Zuza, vou informar-me, preciso saber...

— Eis aí está por que fazes bem indo passar uns dias a Baturité.

E polindo as unhas, o coronel dirigiu-se para a sala de jantar, grave como um apóstolo do bem, enquanto o filho ia desabafando suas cóleras contra a sociedade cearense.

— “Uma sociedade que lê a Matraca e gosta!”

(continua...)

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