Por Inglês de Sousa (1891)
Ao quarto dia, quando lhe vieram abrir do cárcere, estava magro e pálido, denunciando no olhar febril e na agitação do pulso a exaltação que o possuía. Devorara o almoço com um apetite de três dias, e recolhera-se ao dormitório, dizendo-se adoentado.
— Esta febre, dissera o reitor, é obra do demônio da soberba.
A heresia e desobediência de Antônio de Morais causaram grande escândalo no corpo docente, tendo mesmo chegado aos ouvidos do senhor bispo, que muito as estranhara num aluno do Seminário maior.
O reitor dissera um dia à cabeceira do enfermo, julgando-o adormecido:
— É necessário não perder de vista esta alma vacilante. Convém quebrar-lhe a vontade a poder de jejuns e penitências.
A obra anunciada começara em breve, para a felicidade do futuro padre, combatido pelo demônio, auxiliado pelo seu grosseiro temperamento de campônio sensual. Foram duras as provações salutares que lhe impuseram por longos dois meses. Forçavam-no a não satisfazer o apetite, obrigando-o a deixar o jantar em meio para ler aos colegas um capítulo da História Sagrada. Não dormia as suas noites inteiras. Acordavam-no à meia-noite para velar o Santíssimo Sacramento na capela do Seminário. Amesquinhado pela severidade com que o tratavam nas classes, posto num banco isolado, para não contaminar os condiscípulos que o olhavam com zombaria; mal visto dos professores, privado do recreio e entregue a uma meditação constante. Antônio, cujo físico não se abalou, graças à sua robustez camponesa, ficara sem ânimo de reagir contra aquela bendita opressão de todos os dias e de todos os instantes. A enorme vaidade que herdara dos instintos desregrados do pai cedera o passo à humildade de coração, santificadora e eficaz, com que viera afinal a acomodar-se ao regime da disciplina clerical.
Modificara-se. Tornara-se morigerado e dócil. Sofrera com resignação todas as contrariedades com que os senhores padres teimavam em impor-lhe uma submissão que já não recusava, buscando inspirar-se no exemplo da mãe resignada e humilde. Não deixava escapar uma queixa. Compreendia que precisava sujeitar-se ao meio em que as circunstâncias o colocavam para poder um dia, digna e proficuamente, seguir a carreira a que uma irresistível vocação o chamava.
O reitor convencera-se, enfim, de que operara uma conversão milagrosa, e apenas impusera a Antônio de Morais, como condição para receber as ordens maiores, o fazer um retiro espiritual no convento de Santo Antônio, dando-lhe para meditar o tema - Da malícia e das conseqüências do pecado venial.
Agora que estava de posse da vigararia livremente escolhida, tendo, no momento de iniciar definitivamente a sua carreira sacerdotal, sondado o fundo do seu coração, sentia-se cheio de força e de vigor para as lutas da vida.
Sofrera muito no Seminário, mas desses tormentos indizíveis, de que apenas recordava os transes principais, saíra robustecido na fé e na crença, e com a segurança do seu valor próprio, da sua máscula energia, da sua inquebrável força de vontade.
Macário, batendo devagarinho à porta do quarto, comunicou respeitosamente:
— Saberá V. Rev.ma que a janta está na mesa.
CAPÍTULO III
Chovia. Era um aguaceiro forte de meados de março que lavara as ruas malcuidadas da vila, ensopando o solo ressequido pelos ardores do verão. O professor Francisco Fidêncio Nunes despedira cedo os rapazes da classe de latim, os únicos que haviam afrontado o temporal; e olhava pela janela aberta, sem vidros, pensando na necessidade que lhe impusera o Regalado de passar aquele dia inteiro dentro de quatro paredes, por causa da umidade, fatal ao seu fígado engorgitado.
A caseira, uma mulata ainda nova, chamara-o para almoçar.
Naquele dia podia oferecer-lhe uma boa posta de pirarucu fresco, e umas excelentes bananas-da-terra, que lhe mandara de presente a velha Chica ha Beira do lago, cujo filho cursava gratuitamente as aulas do professor. A caseira, a Maria Miquelina, sabendo que o senhor professor não poderia comer as bananas cruas, por causa da dieta homeopática do Regalado, cozera-as muito bem em água e sal, preparara-as com manteiga e açúcar e pusera-as no prato, douradas e apetitosas.
Mas o dono da casa nem sequer as provara. Fizera má cara também ao pirarucu fresco, rosado e cheiroso, preparado com cebolas e tomates, e, por almoço, tomara apenas uma xícara de café forte com uma rosquinha torrada, porque a estômago lhe não permitia alimento de mais sustância. Tivera durante a noite um derramamento de bílis, devido à mudança de tempo, erguera-se de cabeça amarrada, ictérico e nervoso. Fora ríspido com os dois ou três rapazes que compareceram à classe de latim, e despedira-os dizendo que iam ter férias, porque a semana santa se aproximava. Tratassem de decorar bem o Novo método, senão pregava-lhes uma peça.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.