Por Domingos Olímpio (1903)
— Saberão vossas senhorias – exclamou, em vibrações fortes e sonoras – que este homem não é nada meu!... Nem parentes somos, senão por Adão e Eva. Posso morrer sem confissão. Meu corpo não tem pechas, nem pecados a minh'alma...
E estendeu os braços, num gesto largo e franco de inocência que se exibe:
— Entre essa gente maligna que faz pouco de mim, essa gente desalmada que me persegue, como se eu fora uma excomungada ou um bicho brabo, encontrei nele um amigo, um irmão; e hoje, abaixo de Deus, é ele quem me ajuda a sustentar os dias de minha mãe, entrevada dentro de uma rede. Estas noites temos passado juntos fazendo quarto à pobre velha que gemia com dores de fazer cortar coração. Hoje, de manhãzinha, esteve lá em casa e pedi-lhe que fosse procurar o doutor... Ah! meus senhores, até os bichos são agradecidos, quanto mais criaturas cristãs. E aqui está, em pura verdade, porque eu puno por ele e juro que está inocente...
— Não temos provas – observou o Delegado – Por ora só há contra ele suspeitas, indícios...
— Então por que o prenderam? Pois se envergonha um homem sem quê nem para quê, por um impute?...
Em benefício dele; para apurar a verdade...
E se não conseguirem isso? – perguntou Luzia impaciente – Ficará preso toda a vida?!...
— Não se aflija – ponderou o promotor, intervindo, e no intuito de amenizar a pungente cena – Sente-se, repouse. A senhora está muito exaltada, acalme ... Que estupendo tipo! Que formoso cabelo – observou à puridade, voltando-se para um dos comissários.
Luzia reparou, então, em seu desalinho, e sentiu um calefrio de pejo, como se a lambessem aqueles olhos que a fitavam com insistência, olhos mortos de volúpia. Colheu os cabelos, toda aflita e ruborizada; enrolou-os rapidamente, e os prendeu com um gesto gracioso no alto da cabeça, e abrigou-se no lençol branco de babados de cambraia de salpicos.
— Donde é natural? – inquiriu o Promotor.
— Eu me chamo Luzia Maria da Conceição. Sou filha do Ipu. Meu pai, que Deus haja, era vaqueiro das Ipueiras do Major Pedro Ribeiro... Está ouvindo, seu doutor?
Ela aludia a gritos e gargalhadas do povilhéu, bradando na rua: LuziaHomem!... Metam ela na cadeia que se descobre tudo!.. Aviem os pobres que estão aqui esperando com fome!..
— Por que lhe deram essa alcunha?
— Eu lhe digo, seu doutor. Desde menina fui acostumada a andar vestida de homem para poder ajudar meu pai no serviço. Pastorava o gado; cavava bebedores e cacimbas; vaquejava a cavalo com o defunto; fazia todo o serviço da fazenda, até o de foice e machado na derrubada dos roçados. Só deixei de usar camisa e ceroula e andar encoirada, quando já era moça demais, ali por obra dos dezoito anos. Muita gente me tomava por homem de verdade. Depois meu pai, coitadinho, que era forte como um touro, e matava um bode taludo com um murro no cabeloiro, morreu de moléstias, que apanhou na influência da ambição de melhorar de sorte, na cavação de ouro no riacho do Juré. Daí em diante, começamos a desandar. Minha mãe, sempre muito doente, e nós duas muito pobres de tudo, menos da graça de Deus, vendemos as miúças e cabeças de gado, que tiramos à sorte da produção da fazenda, os animais de campo e até o meu cavalo castanho-escuro, calçado dos quatro pés e com uma estrela na testa ... o meu querido Temporal... Tudo isso para não morrermos de fome quando veio esta seca...
Soluços lhe embarcaram a voz, e desatou em copioso pranto.
— Sossegue moça – disse-lhe o Delegado compassivo – A sua sorte nos interessa. Está entre amigos de quem só deve esperar benefício; mas ... é preciso ter paciência. Alexandre tem por defesa os melhores precedentes e todos o abonam; entretanto é indispensável que fique detido enquanto duram as diligências do inquérito ...
— Preso?! ... Não é possível! – exclamou Luzia – Vossa senhoria não fará tamanha injustiça. Eu lhe peço por vida de seus filhinhos... Alexandre é inocente! ...
E rojou-se de joelhos, aos pés do Delegado.
— Tenha paciência! – murmurou este comovido, e tentando erguê-la.
Luzia não se conformava com a horrível idéia da prisão; e continuou a suplicar, muito condolente.
Alexandre já não podia suportar aquele espetáculo, que lhe macerava a alma. Suspirou de alívio quando o Delegado mandou conduzi-lo; e, ao passar por ela, disse-lhe com firmeza:
— Tenha coragem. Cadeia não se fez para animais. Espero em Deus sair limpo desse impute que me levantaram ... Vá para junto da tia Zefa que eu me arranjo...
Tanto que o preso partiu escoltado pelos soldados Belota e Cabecinha, Crapiúna assomou na sala, mesmo em frente de Luzia, cujo olhar dolente acompanhava o moço e se fixava na porta por onde o levaram. A figura do soldado, detestável de arrogância triunfante, substituindo o preso, no campo da visão desvairada, interrompeu imediatamente a aniquiladora impressão de mágoa; e a moça, transformada por encanto, estremeceu num esto de ódio, que lhe faiscou no olhar, como um corisco.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.