Por Aluísio Azevedo (1880)
Entretanto, aquela roda se desenvolvia e multiplicava com a prodigiosa fecundidade da larva.
Mas donde vinha essa gente?
Não sei!... A podridão que responda donde lhe vêm os vermes.
Tudo neste mundo tem a sua conseqüência, o seu séquito próprio de misérias, o seu acompanhamento natural e espontâneo - a glória tem a vaidade; o amor o egoísmo; a podridão o verme. É a lei fatal dos contrastes e dos extremos tocados: não há sentimento que não tenha uma extremidade na terra e outra no céu, um pé no berço e outro no túmulo, um olho na luz e outro na treva.
Foi por isso que, a cabo de três anos, Maffei tinha com heróicos esforços, cevado, relacionado e habituado aos costumes de sua casa uma roda de homens elegantes, que fumavam, bebiam e jogavam à custa dele.
Houve que lhe proporcionasse ocasião de especular com os seus bens: triplicou-os.
Já era poderoso e ridículo, antipático e adulado; é justo viesse a ser rico e desgraçado.
E, com efeito, passava os dias entregue sempre a esse cogitar aborrecido, que produz a preocupação doentia dos homens excessivamente ambiciosos; nada desfrutava, nada o distraía, nada podia arrancá-lo das profundezas de suas preocupações; vivia a mergulhar no fundo dessa cisma constante e estéril, que faz de um homem um bicho insuportável.
Maffei seria insuportável, se não fosse rico.
Mesmo durante o sono, o pobre diabo não vivia menos apoquentado: nessa segunda existência aturava coisas horríveis! Às vezes, numa especulação, perdia todos os bens e via-se a esmolar inteiramente pobre com a filha; outras vezes, dava para roubar e era preso como ladrão, condenado às galés e coberto de grilhões e pancadas; noutras ocasiões era Miguel que lhe aparecia formidável, saindo do mar, cheio de sangue, de limo e de cólera, a exprobá-lo como se espancasse um cão; e, coisa mais singular, Maffei, que acordado só se lembrava de Miguel com indiferença e desprezo, durante o sono temia-o covardemente, e deixava-se bater por ele, trêmulo e suplicante a seus pés, confessando as próprias culpas e reconhecendo a razão da parte do adversário. Um dia, Rosalina afigurou-se-lhe descomposta e sem pudor a injuriá-lo; outra vez, foi enforcado e seu carrasco era Cristo, que do alto do cadafalso, poético, louro, cheio de bondade, sorria piedosamente para ele; cometia, às vezes, sacrilégios e então acordava em gritos e prantos; enfim, Maffei durante o sono sofria horrivelmente dominado e combatido por um inimigo tremendo e mau, que o fustigava e repelia apesar de sair dele próprio.
Queremo-nos referir a esse eu, que durante o sono sai de nós e à parte constitui livremente a sua individualidade, pensando, praticando e resolvendo muito a seu bel-prazer, sem nos ouvir, sem nos consultar.
Vezes há que, durante o sonho, a despeito da nossa honra, roubamos, a despeito da nossa coragem, choramos aos pés de um inimigo, e a despeito do nosso amor, matamos o próprio pai ou irmão. E o — eu — independente e arbitrário dos sonhos faz-nos caprichosamente assassinos, ladrões e covardes, sem por isso ter nenhuma responsabilidade ou castigo.
Por outro lado, Rosalina transformava-se de dia para dia. Já não dava mais a mais pálida idéia da antiga camponesa, formosa e louçã, cheia de singela ternura, amada, mulher na idade, criança na inocência. Além da beleza, nada mais restava desse encantador mais divino que humano, mais anjo que mulher, desse ente que outrora com a sua garganta e o seu coração incensava de poesia e cantos matutinos a casinha branca.
Fizera-se elegante e não sem trabalho.
Teve de vencer certos obstáculos renitentes como a linguagem, a princípio, depois os movimentos, a voz, o olhar, o sorriso, tudo, toda essa beleza fora necessário desmoronar, e com que dificuldade! Para sobre as ruínas dela construirse outra beleza mais falsa, mais cara e menos rara — a elegância. A elegância começa sempre onde a natureza acaba, é uma viciosa continuação pelo homem.
As regras do canto, os passos da dança, a música, os preceitos de civilidade, a distração afetada, a gramática são coisas fáceis de aprender na meninice, porém obstáculos assustadores na idade em que já se não tem respeito aos mestres.
Todavia, Rosalina venceu todas as dificuldades.
Agora, não a incomodavam mais os vestidos justos, decotados e de enorme cauda, afizera-se aos sapatinhos à moda francesa, e o triunfo seria completo se, de vez em quando, sob os invólucros de seda e de rendas bordadas, não quisessem as desenvoltas carnes da outrora camponesa, proclamar sua independência, violando colchetes e estalando alguns pontos mais delicados do vestido.
Quanto não custou habituar aquelas belas mãos tão morenas e tão gordinhas às luvas apertadas!
Os dedos repeliam os anéis, o pescoço o colar, os braços a pulseira!
Como não suspiravam os delgados pés pelos sapatos frouxos com que dantes corriam?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.