Por Aluísio Azevedo (1895)
Oh! Era impossível que não houvesse recurso para obter um ideal lógico e tão humano! Era impossível que não pudesse eu evitar para minha filha o grande mal que me estragou toda a vida! Era impossível que não houvesse um meio de salvar a pobre criança da desgraça que a esperava; um meio de evitar que ela naufragasse como eu naufraguei, apesar da minha virtude e apesar do amor e das boas intenções de meu marido!
Sim, sim! o meio havia de existir, e eu havia de descobri-lo!
E desde esse momento, não descansei mais um instante. Dediquei todo o meu pensamento, todo o meu coração de mãe, todo o meu esforço, em descobrir o meio salvador.
Principiei por estudar-me a mim mesma; estudei-me longa e pacientemente, dissecando, um a um, todos os grandes e pequenos fatos que encheram a minha vida conjugal, e procurei descobrir quais deles marcavam as épocas divisórias dos três estados que conheci ao lado de meu marido; a saber: 1º) o estado de completa e franca felicidade moral e fisiológica; 2º) o estado de transição, estado de dúvida, de tristeza sobressaltada e vago ansiar por uma felicidade, que eu não podia determinar qual fosse, mas que me fazia muita falta à vida e me tornava inconsolável como mulher. Foi durante esse segundo período que nasceu, e começou logo a acentuar-se, a minha indiferença genésica por meu marido. Foi também nesse período que acabei de amamentar Palmira; 3º) o estado de crescente hipocondria, depois tédio e cansaço, e afinal repugnância absoluta pela vida matrimonial, o que transformava em verdadeiro sacrifício, sacrifício insuportável, a existência em contacto com meu esposo, a quem todavia continuava a estimar muito, não tanto quanto a minha filha, nem também em segundo lugar, mas logo em terceiro. O segundo lugar na minha afeição cabia já ao homem, que até hoje ficou sendo o meu amigo e o meu verdadeiro amado, o Dr. César Veloso, de quem lá para adiante terei muito que dizer. Só o conheci já em meio deste terceiro período, e desde então minha alma foi, a pouco e pouco, se chegando para ele... mas não é disso que se trata por enquanto. Vamos ao que importa:
O primeiro estado começou na minha época de noiva, e sustentou-se até quase ao termo da aleitação de Palmira. Esse período feliz foi apenas falhado por alguns senões da lua-de-mel, como explicarei depois; coisas de grande alcance, mas de possível correção, quando se tratasse do casamento de minha filha. O segundo estado durou quatro anos, e o terceiro três, até à minha definitiva separação de Virgílio.
Voltemos ao primeiro: Com a puberdade, como que se abriu defronte de meus nascentes desejos um mundo de misteriosas delícias, um vasto caminho de ternura e de esperanças, verde, alegre, risonho, todo iluminado de um sol novo e desconhecido para mim, que me embriagava a alma. E esse desejado caminho perdia-se infinitamente pelos meus sonhos de donzela, por entre uma cheirosa alameda de laranjeiras em flor.
Como suspirei estendendo o meu casto desejo por esse longo e misteriosos caminho desejado! Como eu então, pobre de mim! supunha que o meu destino fosse uma indefinida cadeia de satisfações de todo o meu ser; e que este, sob o fecundo eflúvio do amor de meu noivo, iria desabotoar amplamente, como uma rosa ao sol, transbordante de seiva e de aroma! A idéia de um filho me vinha já ao espírito, mas na poética imagem de um pequenino botão de flor ao lado de outra flor maior, plenamente desabrochada, que era eu.
Dores, decepções, fastios e tédios, não entravam jamais no cantante programa da minha felicidade. E note-se que eu não era, à semelhança de muitas das minhas amigas, o que se pode chamar uma moça romântica. Não sonhei nunca para meu noivo algum príncipe encantado, nem algum singular e formoso aventureiro, que viesse de longínquas paragens, galgando precipícios e vendendo insuperáveis escolhos, para chegar até a mim e depor a meus pés o seu coração de poeta enamorado e a sua gloriosa espada de cavalheiro.
Não, e acho que essas donzelas, que sonham assim torto, são verdadeiras aleijadas do coração, deformidade conseqüente de uma moléstia que grassava muito quando eu tinha dezoito anos — a infecção romântica, com caráter pernicioso e acompanhada de crises agudas de delírio e perturbações cerebrais. O que eu via no casamento, graças a Deus o digo, em boa consciência e com orgulho do meu bom senso, era o legítimo direito de uma felicidade natural e honesta. Sonhava um noivo razoável e verosímil; sonhava um rapaz de gravata e fraque, sadio, inteligente, ativo, honrado e bem-parecido.
Era ainda sonhar muito, mas, apesar disso, encontrei o ideal dos meus sonhos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.