Por Aluísio Azevedo (1887)
"Jesus, filho de Maria, príncipe dos céus e rei na terra, senhor dos homens, amado meu, esposo de minha alma, vale0me tu, que és a minha salvação e o meu amor! Esconde-me, querido, com o teu manto, que o leão me cerca! Protege-me contra mim mesma! esconjura o bicho imundo que habita minha carne e suja minha alma! — Salva-me! Não me deixes cair em pecado de luxúria, que eu sinto já as línguas do inferno me lambendo as carnes do meu corpo e enfiandose pelas minhas veias! Vale-me, esposo meu, amado meu! Vou dormir à sombra de tua cruz, como o cordeirinho imaculado, para que o demônio não se aproxime de mim! Amado do meu coração, espero-te esta noite no meu sonho, deitada de ventre para cima, com os peitos bem abertos, para que tu me penetres até ao fundo de minhas entranhas e me ilumine toda por dentro com a luz do teu divino espírito! Por quem és, conjuro-te que não me faltes, por que, se não vieres, arrisco-me a cair em poder dos teus contrários, e morrerei sem estar no gozo da tua graça! Vem ter comigo, Jesus! Jesus, filho de Deus, senhor dos homens, príncipe dos céus e rei na terra! Vem que eu te espero. Amém."
Magdá decorou isto e, desde então, todas as noites, antes de dormir, ficava horas esquecidas ajoelhada defronte do seu crucifixo de marfim, a repetir em êxtases aquelas palavras que a entonteciam com a sua dura sensualidade ascética. E os olhos prendiam-se-lhe na chagada nudez do filho de Maria e ungiam-lhe ternamente as feridas, como se ela contemplasse com efeito o retrato de seu amado. Mas, naquele corpo de homem nu, ali, no mistério do quarto, trazia-lhe estranhas conjeturas e maus pensamentos, que a mísera enxotava do espírito, coroando envergonhada da sua própria imaginação.
Foi a partir desse tempo que deu para andar sempre vestida de luto, muito simples, com a cabelo apenas enrodilhado e preso na nuca; um fio de pérolas ao pescoço, sustentando uma cruz de ouro, e mais nenhuma outra jóia. E, assim, a sua figura ainda parecia mais delgada e o seu rosto mais pálido. A tristeza e a concentração davam-lhe à fisionomia uma severa expressão de orgulho; dir-se-ia que ela, a medida que se humilhava perante Deus, fazia-se cada vez mais altiva e sobranceira para com os homens. O todo era o de uma princesa traída pelo amante, e cuja desventura não conseguira abaixar-lhe a soberbia, nem arrancar-lhe dos lábios frios numa queixa de amor ou um suspiro de saudade.
Os seus atos mais simples e os seus mais ligeiros pensamentos ressentiam-se agora de um grande exagero. Nunca se mostrara tão intolerante nos princípios de dignidade e na pureza dos costumes; nunca fora tão aristocrata, tão zeladora da sua posição na sociedade, nem tão convicta dos seus merecimentos e dos seus créditos.
Uma conduta irrepreensível! Se sofria ou não para sustentar os deveres de mulher honesta só o sabia a discreta imagem de marfim, a quem unicamente confiava os segredos das suas lutas interiores; os desesperos e as misérias da sua carne; se tinha desejos, tragava-os em silêncio com a mais inflexível nobreza e o mais afinado orgulho. Ao vê-la, na singela gravidade do seu trajo, o rosto descolorido pela moléstia, os movimentos demorados e sem vida, sentia a gente por ela um profundo respeito compassivo, uma simpatia discreta e duradoura. O triste ar de altiva resignação que se lhe notara nos olhos, outrora tão ardentes e tão talhados para todos os mistérios da ternura; a desdenhosa expressão de fidalguia daqueles lábios já sem cor, instrumentos que a natureza havia destinado para executar a música ideal dos beijos e cujas cordas pareciam agora frouxas e embambecidas; aquela respiração curta e entrecortada de imperceptíveis suspiros; aquela voz, poderosa na expressão e fraca na tonalidade, onde havia um pouco de súplica e um pouco de arrogância — súplica para Deus e arrogância para os homens; enfim — tudo que respirava da sua adorável figura de deusa enferma: tudo nos conduzia a amá-la em segredo reverentemente, como um soldado a sua rainha.
Agora a bem poucos dava a honra de uma conversa; falava sempre sem gesticular e em voz baixa, e ninguém, a não ser o pai, lhe alcançava um sorriso. A dança, o canto, o piano, tudo isso foi posto à margem; as partituras dos seus autores favoritos já não se abriam havia longos meses; a sua caixinha de tintas vivia no abandono; os seus pincéis de aquarela, dantes tão companheiros dela, já lhe não mereciam sequer um beijo. Iam-se-lhe agora os dias quase que exclusivamente consumidos na leitura, lia mais que dantes, muito mais, sem comparação, mas tão somente livros religiosos ou aqueles que mais de perto jogavam com os interesses da igreja; gostava de saber as biografias dos santos, deliciava-se com a "Imitação de Jesus Cristo", e não se fartava de ler a Bíblia, o grande manancial da poesia que agora mais a encantava; decorara o "Cântico dos Cânticos" de Salomão, principalmente o capítulo V que principia deste modo:
"Venha o meu amado para o seu jardim, e coma o fruto das suas macieiras.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.