Por Machado de Assis (1858)
Disse, e à pressa engolindo alguns bocados
Do já frio jantar que há muito o espera,
Das insígnias do cargo se reveste,
Entra na cadeirinha e aos pajens manda
Que ao colégio o conduzam sem demora.
Velozes partem, e suando em bica,
Vão trepando a ladeira, e à casa chegam
Que ali, no viso da colina, encerra
Em seu discreto seio um garfo ilustre
Da vasta, onipotente companhia.
Desce a certa distância o grande Almada,
Encara a porta, e trêmulo de susto
Alguns minutos fica; mas vencendo
O natural terror que lhe infundiam
A casa e seus famosos moradores,
Com ânimo atravessa o curto espaço
E vai bater à porta do convento.
Não de outra sorte o resoluto César,
Chegando à margem do vedado rio,
Algum tempo hesitou se contra a pátria,
Se contra si lançar devera a sorte;
Mas logo, ao gênio seu abrindo as asas,
O Rubicon transpõe, e afoutamente
Tudo fiando da propicia estrela,
Contra a pátria marchou e a liberdade.
XI
Vinham do refeitório, que era farto
E próprio de tão nobre companhia,[21]
Os veneráveis padres, quando a nova
Correu de que chegara o grão prelado.
Com alvoroço desce logo a vê-lo
Toda a comunidade; as cortesias
Respeitosas lhe faz, os cumprimentos,
Os elogios vãos com que lhe enfuna
De túmidas vaidades a cabeça.
Dali à livraria o levam logo
Com grandes cerimônias e ao pedido
De falar coo reitor secretamente,
Todos os padres dão, aos calcanhares.
XII
Fechada a porta e junto da janela
Ambos os dous sentados gravemente,
Estende os olhos o prelado e abrange
Todo esse plaino de águas, não pejado
De tantíssimas velas, e bandeiras
Que hoje às brisas do mar de Guanabara
Molemente flutuam. Longa serra
Vê cortar o horizonte, e além galgando
Com os vôos da leve fantasia,
Campos descobre, caudalosos rios,
Matas que humano pé não profanara,
E cheio de um sincero entusiasmo
Faz um breve discurso, cujo tema
A bela terra foi e o seu futuro;
Discurso em que (por que melhor atasse
O seu entusiasmo à causa sua)
De alto louvar encheu a companhia
“Em cujas reverendas mãos se acolhe
(Diz ele ao concluir) o miserando
Prelado contra quem governo e povo
Implacáveis as armas do ódio assestam”.
XIII
Com lastimosa voz logo refere
Miudamente o caso da devassa,
O perigo da igreja, a eterna mancha,
E ao reitor pede, cara a cara, o voto.
Sua Paternidade alguns minutos
Calado esteve, e o trêmulo prelado,
Sem os olhos tirar de cima dele,
Último e frouxo lume de esperança,
As unhas vai roendo impaciente
E vinte vezes na cadeira muda
A posição do corpo. Enfim o grave
Regedor do colégio aos ares solta
Um profundo suspiro, e levantando
Os olhos para o tecto, assim lhe fala:
“Vítima sois, não única, do torpe,
Estólido Senado; este colégio
Alvo há sido também das frechas suas
No conflito dos mangues, a que o povo
Quer ter antigo jus, e que há muito
Pertencem claramente à companhia.
Se eu vos narrasse esta comprida guerra,
As ciladas do pérfido inimigo,
Os golpes encobertos, toda a raiva
Com que ele afronta a paciência nossa,
Inteira gastaria uma semana.
Esperança não temos do triunfo.
Quem nos defenderá? Que braço forte
Às fúrias se oporá do vão Senado?
Quem as mãos cortará do inculto povo?”
XIV
Aqui o grande Almada da cadeira
Zeloso se levanta: “Não conhece
Vossa Paternidade um braço forte?
Vale pouco, senhor, este prelado,
Mas longe está de apodrecer na terra,
E enquanto um sopro lhe restar de vida,
Todo às ordens será da grande casa
De que é vossa pessoa ornato e lustre.
Descansai, descansai; eu tenho um meio
De os chamar à razão. Contra o Senado,
Se teimar em falar no jus do povo,
E contra o povo, se gritar com ele,
Excomunhão darei, se for preciso”.
XV
Tais palavras ouvindo, sobre o peito
Cruza as mãos o reitor e lhe agradece
Ao prelado este rasgo de pujança
E grandeza sem-par: “Eu não ousava
Tanto esperar de Vossa Senhoria,
A quem muito já deve a casa nossa,
E que tão espontâneo hoje me estende
A generosa mão. Na vossa causa
Sabeis que eu nunca deitaria um voto
Que contrário vos fosse. Ide tranqüilo,
Que a defender-vos sairei armado
Com as melhores peças.
O conselho Há de a voz escutar deste colégio,
E confirmar a excomunhão do Mustre,
E compeli-lo à entrega da devassa”.
XVI
Um doce abraço estas palavras fecha;
E mais alegre o ínclito prelado
Que o mancebo amoroso, se dos lábios
Colheu da amante o suspirado beijo,
Do reitor se despede, e velozmente
Na cadeira se encaixa em que viera
E alegrar vai os ânimos aflitos
Das colunas da igreja fluminense.
XVII
As roliças colunas, entretanto,
Sobre o caso fatal deliberavam,
Quando Almada chegou. Em volta dele
Ansiosos todos a conversa escutam
E as promessas do astuto jesuíta,
Em cuja honra o adulador Veloso
Um acróstico lembra, e lembraria
Igualmente um jantar, se o néscio
Lucas, Que outra cousa não tem nos ermos cascos,
Primeiro não lançasse a grande idéia.
CANTO VIII
I
Era alto dia, e todo alvoroçado
Corria o povo de uma banda a outra,
A sentença aguardando do conselho
Que ia da excomunhão julgar o caso.
A tranqüila cidade que inda há pouco
No regaço da paz adormecia,
Em dous opostos campos se divide,
Como os que a bela terra, em cuja fala
A musa antiga suspirar parece,
Um tempo viu terçar sangrentas armas
Em favor da tiara e da coroa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.