Por Aluísio Azevedo (1882)
E ficaram um instante a conversar, quando Gregório reparou que uma mulher havia parado à porta do café, a olhar investigadoramente para ele. Reconheceu-a logo e correu ao seu encontro. Era a viúva.
— Muito bonito!... disse esta, quando Gregório conseguiu alcançá-la. Pode voltar para onde estava!...
E como Gregório ficasse a rir com ar de pouco caso:
— O senhor nem precisava levantar-se para vir ter comigo!... era melhor que ficasse lá mesmo!...
— Deixa-te disso!
— Vou deixar-me é de ligar tanta importância a quem não o merece!
Neste ponto foram interrompidos por duas senhoras que pararam para falar com Júlia.
Gregório despediu-se e seguiu a direção contrária ao café da Menina do Bandolim. No fim da rua parou, comprou charutos e, à vista de um anúncio de espetáculo, resolveu ir ao teatro.
Ao entrar na platéia teve de afastar-se para dar passagem a uma família, composta de três senhoras e um cavalheiro.
— Oh! O Gregório! exclamou este ao vê-lo, e escancarou os braços expansivamente.
— Roberto! gritou o rapaz, atirando-se-lhe nos braços. Não sabia que tinhas voltado!
— Vim ontem.
— Mas como foste lá pelo norte? Que fizeste? Que me contas de novo?... — Nada, isto é, casei-me. Olha, aqui tens minha mulher...
E voltando-se para uma das senhoras:
— Sinhàzinha, este é o Gregório, um menino que deixei quase do tamanho desta bengala e venho encontrar mais alto do que eu! E acrescentou, cortando uma risada e designando as outras senhoras: — D. Januária, velha amiga de minha mulher, e sua bela filha adotiva, D. Clorinda. Amanhã hás de ir jantar comigo e ficas prevenido de que te não dispenso um só domingo!
E o espetáculo passou-se todo em conversa.
Ao levantar-se no dia seguinte, Gregório notou que sentia no coração um desejo vago, e, nesta dúvida, neste estado vacilante da vontade, passou a manhã inteira e passou também todo o jantar, apesar da alegria ruidosa de Roberto.
Só à noite, com a chegada de D. Januária e da pupila, é que Gregório conseguiu descobrir o que tanto desejava ele esse dia — era ver Clorinda.
Não esperou segundo convite para jantar todos os domingos com o amigo. Duas razões o levaram a isso: a primeira porque aquele costumava reunir em casa algumas pessoas, entre as quais D. Januária e sua adorável filha adotiva; a segunda razão saberá o leitor daqui a pouco. Por enquanto precisamos falar de outra coisa.
As reuniões do Dr. Roberto eram muito limitadas; pouca gente aparecia além da que acabamos de citar.
A mulher, D. Cartolina, não dava muito para etiquetas, se bem que fosse de seu natural amiga de agradar e servir. Gostava, porém, que não a tirassem da sua liberdade e do seu cômodo.
Isso mesmo dizia o ar descansado e bondoso da sua figura gorda e linfática; contudo, era muito raro se lhe surpreender nos lábios o menor gesto de contrariedade.
Gregório, quando a visitou pela primeira vez, passou algumas horas assentado ao seu lado, e sentiu-se durante esse tempo ir pouco a pouco penetrando do ar morno, indiferentemente satisfeito, que respirava dela toda, como a própria temperatura do corpo.
Carolina não se levantara sequer para o receber, mas demorara nas suas mãos algum tempo a do rapaz e indagara-lhe da saúde com um riso esparrinhado por todo o rosto. Às vezes parecia que ela se deixava ficar assim a sorrir indeterminadamente, por esquecimento ou por preguiça de suspender o sorriso.
Suas feições estavam sempre abertas, como as gavetas de um desmazelado; mas olhava-se para dentro delas, com o desinteresse com que se olha para o interior de gavetas vazias.
Nada a sobressaltava, nada a afligia. Pela manhã, às dez horas, a criada ia ajudá-la a sair da casa para o banho morno; servia-lhe depois uma papa de leite e farinha de mandioca, e passava a penteá-la, calçá-la e vesti-la. Durante esse tempo as duas, senhora e criada, conversavam, devagar, molemente, assuntos bambos, sem interesse para ninguém e maçadoramente virgulados de grandes pausas.
Carolina gostava em extremo que lhe mexessem na cabeça, estimava que a criada demorasse bem o arranjo de seus cabelos, durante o qual se repoltreava ela na cadeira, toscanejando uma voluptuosidade surda e espessa, de gata saciada.
Às vezes adormecia nessas ocasiões e era preciso que a criada a chamasse depois para o almoço.
Comia muito compassadamente, aos bocadinhos, como uma criança gulosa. Era doida por doces e quitutes. Quando passava pelo açucareiro tirava em geral um pouco de açúcar, com que cobria a língua. Fazia muita questão na escolha dos pratos. Recomendava de véspera, durante o almoço ou o jantar, o que lhe apetecia comer no dia seguinte, e a algumas iguanas mais do seu gosto, como por exemplo a moqueca de peixe, ela só saboreava sem talher, à mão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.