Por Aluísio Azevedo (1884)
— Ora! respondeu ela. É um animal feio! feio, e está sempre a pregar-me sustos! Ainda não há dois dias, achava-me eu descuidada na sala de jantar, quando o maldito surge-me pelas costas. Não imaginas que susto apanhei! Demais, só gosto dos cães em certas e muitas determinadas circunstâncias: — como acessório pitoresco de uma paisagem, não são maus; na qualidade de guia de cego, ao longo da rua, num dia chuvoso, também não desgosto; ou então dentro de casa num gabinete de trabalho — um cãozinho felpudo, asseado, muito gordinho, um kingcharles esquecido sobre as cadeiras — tem sua graça. Mas o Urso não está em nenhum desses casos; é um cão detestável, feio, sem pitoresco, sem razão de ser, sem pés nem cabeça de cão; parece um monstro, é grande de mais, é bruto, não se lhe vêem os olhos, não vai bem em parte alguma; tão mal fica sobre o tapete da sala, como sobre a grama da chácara! Além disso, enche-me a casa de pulgas e tem uma morrinha insuportável! Se soubesses como ficas repulsivo depois de brincar alguns instantes com ele!...
Esta última consideração resolveu o Borges a separar-se do querido Urso. Mandá-lo-ia para a casa de um amigo, morador do Engenho Novo, visto que na ocasião não dispunha em Paquetá de alguém que se pudesse encarregar disso.
Foi com os olhos cheios d'água que o bom homem viu no dia seguinte partir o seu fiel companheiro.
— Vai! disse consigo. Vai, meu pobre Urso! Não contavas naturalmente que eu te enxotasse de casa, como se enxotam os Guterres e os Barradinhas — tu! que sempre foste bom e verdadeiro!
— Pobre animal! pobre animal! dizia o Borges, fechando-se no quarto. Como tudo se vai transformando em minha vida! Já não possuo os meus dois melhores amigos, os únicos que me restavam — o Barroso e o Urso!
E chorava. O Barroso fora o seu companheiro de infância, em Paquetá. Principiaram a vida trabalhando no mesmo serviço e às ordens do mesmo patrão, pois que o Barroso era neste tempo caixeiro do pai de Borges; antes do casamento, nunca tinham tido a mais ligeira rusga — foram sempre unha com carne, unidos — inseparáveis; mas depois... esfriaram, nunca mais se deram, e por conseguinte só restava o outro — o Urso, o fiel, o sempre o mesmo, o único que lhe não fazia recriminações!...
E agora era este que se ia também... talvez para sempre! Oh! quantas vezes não passaram juntos, horas esquecidas, como dois iguais!... Com que prazer o Borges, ao voltar do trabalho, não recebia no ombro as patas do companheiro e não lhe corria a mão pelo enorme lombo felpudo?...
Ah! Mas ele, sem que Filomena o soubesse, havia de ir visitá-lo, pelo menos duas vezes em cada mês.
E desde então, efetivamente, o Borges, quando lhe apertavam as saudades do Urso, metia-se no trem e lá ia passar com ele alguns instantes. — Que idílios nessas curtas visitas clandestinas! Que festas não trocavam entre si os dois amigos!
O animal parecia compreender aquela afeição do Borges, porque, mal o via apontar ao longe, disparava a correr para ele, grunhindo, a sacudir a cauda, a fazerlhe negaças, a cercá-lo, a pular, a morder-lhe os calcanhares, num alvoroço de prazer. Mas um belo dia em que o mestre de obras foi visitá-lo, disseram-lhe que o dono da casa havia na véspera fugido aos credores, e ninguém sabia dar notícias dele, e muito menos do Urso.
O Borges voltou muito triste, e assim se conservou durante o resto do dia. A mulher veio a saber a causa dessas mágoas, e, para o consolar, tomou-lhe a cabeça, entre as mãos e deu-lhe um beijo em plena boca; mas fugiu logo, deixando o marido na doce esperança de ver terminar ali as suas provações e com elas o longo suplício de Tântalo, que o devorava.
Assim não sucedeu.
Nem só o trinco permanecia corrido, como a paixão de Filomena pelas festas e pelos requintes de luxo exacerbara-se de um modo assustador. Agora, não se passava um dia, uma hora, que lhe não acudissem novos meios de gastar "carradas de contos". Ela quis carruagens, parelhas de raça, lacaios gordos à moda parisiense, grooms de cara raspada, que servissem o chá de gravata branca e casaca; quis as esquisitices do gosto, os Sêvres, as sedas de Macau, os móveis caprichosos e as jóias empobrecedoras para quem as dá.
O Borges principiava a temer uma ruína. Ele era rico... mas; afinal, que diabo! não tinha à sua disposição as Índias Inglesas! Daquele modo onde iriam parar?... Verdade é que ultimamente, instigado pela mulher, que desejou sentir as comoções comerciais, arriscara na Bolsa grandes quantias que lhe trouxeram lucros consideráveis.
Mas a fortuna também cansa! refletia o capitalista. E se me desanda a roda, posso dar com os burros n'água.
Por esse tempo exercitava-se ele no bilhar. Já sabia tomar grogs, dizer mal dos cantadores do lírico, e perder dinheiro nas corridas do Prado.
— Contudo, ainda te falta uma coisa, observou-lhe a mulher uma vez em que ele queria valer os seus progressos.
— Ainda! Qual?
— Um título.
— Mas para que um título?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.