Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Ana Campista fora trazida de uma vila do interior por Leôncio Peres, seu pai, que viera se estabelecer com uma modesta casa de comércio na cidade do Rio de Janeiro e que um dia lhe apresentou um seu afilhado, Lourenço Taques, chegado uma hora antes daquela mesma vila, e disse-lhe sem consultas nem explicações:
– O Sr. Lourenço vai ser teu marido.
Lourenço ficou espantado e Ana curvou a cabeça. A notícia apanhara de surpresa os dois noivos, que eram quase desconhecidos.
Dito e feito. Dois dias depois, celebrou-se o casamento, a que Ana Campista se submeteu sem murmurar, porque seu pai era o tipo da severidade a mais violenta.
Leôncio Peres casara a filha, porque Lourenço lhe pareceu um bom partido. Ambrósio Taques casou o filho para livrá-lo de sentar praça de soldado. Nada mais simples.
O mestre-de-campo do distrito onde morava a família de Lourenço achou neste mancebo disposições para guerreiro e mandou-o recrutar; e, como o não encontrassem os seus agentes, fez trancar na cadeia da vila a Ambrósio Taques. Mas debalde, porque o enfezado velho zombou dos gritos e das ameaças do fidalgão mestre-de-campo, e não deu conta do filho.
No fim de dois meses saiu Ambrósio da prisão, escreveu logo ao seu compadre Peres e, recebendo a resposta deste, foi aos matos da fazenda, onde escondera Lourenço, e, sem dizer a este o fim a que o destinava, mandou-o para a cidade.
Este casamento assemelha-se a muitos outros daquele tempo, em que, por medo do recrutamento, os pais chegavam a casar meninos de 10 ou 12 anos com meninas que preferiam as bonecas aos maridos.
Entre parênteses. Não se lembrem os felizes viventes de hoje de persignarem-se para espantar o demônio do passado.
O demônio mudou de nome, de figura e de maneiras. Mas se recolheu ainda ao Inferno. Chamava-se mestre-do-campo e chama-se hoje aí por fora delegado de polícia, e faz pouco mais ou menos as mesmas diabruras que fazia dantes. Neste século e depois da constituição, já um dia prendeu para soldado a um bacharel em direito, prende e faz assentar praça a homens casados e a outros que têm por si isenção da lei, e que, apesar da lei recebem muito honradamente chibatadas nos lombos.
Por conseqüência, no fundo continua o mal a ser o mesmo. A única diferença que eu lhe encontro é que outrora o arbítrio era a verdadeira lei, e hoje a lei é o verdadeiro arbítrio. Se não compreenderem a metafísica desta diferença, consolem-se, porque eu também não a compreendo.
Fecho o parêntesis e continuo a história.
Lourenço Taques ficou morando na cidade, e passou em bre ve de caixeiro a sócio da casa comercial do sogro. Mas se deixou de ter amo no negócio, teve na vida doméstica mais do que amo: teve uma senhora despótica em Ana Campista, que, em retribuição ao amor o mais cego e complacente do esposo deu apenas a este o disfarce de uma indiferença que mais tarde se transformou em desprezo, contido apenas pelo medo que ela tinha da autoridade e do desabrimento de seu pai.
Leôncio Peres era amigo do pai de Matilde, e esta e Ana se tornaram íntimas camaradas; e nas efusões de uma recíproca e decidida confiança fizeram um contrato de aliança indissolúvel e perpétua.
As senhoras costumam celebrar com freqüência tais ajustes, e os respeitam tanto como os governos os seus tratados de aliança ofensiva e defensiva. Nestes, como em outros pontos, os governos parecem pertencer ao sexo feminino.
Tratou-se do casamento de Matilde, e quis a má fortuna desta que Ana Campista, encontrando o noivo, Gil Soares, por ele se apaixonasse perdidamente. Mas, tão fementida como hábil a falsa amiga, vendo insensível aos seus agrados provocadores porém cautelosos, o jovem, que então só parecia ter olhos, ouvidos e coração para a sua noiva, mudou de plano, sacrificou o presente ao futuro, e calculou que, não podendo desposar o homem que amava, mais facilmente o tornaria seu amante depois de casado com Matilde, cuja família tão íntimas relações entretinha com a sua. Em seguida, pois, tão interessada se mostrou pelo casamento da incauta amiga, que esta a escolheu para acompanhá-la ao altar.
O mestre Valentim havia, portanto, acertado no juízo que fizera de Matilde e de Ana Campista, vendo e apreciando a malícia do sorriso de uma e o fogo do olhar da outra.
Correram felizes e tranqüilos os primeiros meses que sucederam ao casamento de Gil Soares.
Ana Campista contemporizara com a lua-de-mel. Não deixou, porém, acabar o ano de noivado sem entrar em ação, e, tomando por pretexto os ajustes que celebrara com a amiga, principiou por lançar no seio desta amargas suspeitas de infidelidades do esposo.
A intrigante era auxiliada pelo indigno procedimento de Gil Soares, que, libertino antes, libertino continuou a ser, e bem cedo, depois do seu casamento.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.