Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Para Luís de Vasconcelos, o desejar precedia poucos instantes ao querer, e o querer se satisfazia logo pelo poder, que não tardava a mandar. E assim devia naturalmente observar-se no tempo do posso, quero e mando, que eram as três sublimes notas da música do despotismo, que no Brasil se cantava a compasso marcado pela mais infalível das batutas – o bastão do vice-rei.
Demais, o enérgico sucessor do hábil marquês de Lavradio tinha por sua vez descoberto o segredo de arranjar dinheiro, quando os cofres estavam exaustos, e de improvisar trabalhadores, quando não havia gente para o trabalho, como já ficou dito e demonstrado em um dos nossos passeios ao jardim público do Rio de Janeiro.
O desejo que teve Luís de Vasconcelos de regenerar a capela e o recolhimento de N. S. do Parto entrou, por conseqüência, em imediata realização. O mestre Valentim acudiu à voz do vice-rei e meteu mãos à obra. Somente um pouco desapontado por ver-se coagido a consertar e a acrescentar o edifício velho, em vez de construir um novo, que fosse digno da sua maestria em arquitetura.
Não me é possível marcar o dia em que começam as obras, no ano de 1787. Contaram-me, porém, uma história que provavelmente contém episódios inventados pela imaginação. Mas uma história a cujos fios prende-se a inauguração daqueles trabalhos, e vai toda ela acabar na catástrofe que dois anos depois ia destruindo completamente a capela e o recolhimento do Parto.
É claro que estou na obrigação de reproduzir aqui o romance do incêndio do recolhimento do Parto, para não deixá-lo ficar de todo perdido nas sombras do passado.
No momento em que terminava a cerimônia da inauguração dos trabalhos em presença do vice-rei, passou diante da capela, vindo da igreja, e pela rua de S. José, seguindo pela da Ajuda, o cortejo de um casamento, constando de duas elegantes cadeirinhas em que eram levadas a noiva e a madrinha, e do noivo, e dos parentes e amigos, que marchavam a pé.
É de regra que as noivas abaixem os olhos e procurem esconder-se às vistas dos observadores. Mas, por exceção a essa regra, a noiva que passava abriu as cortinas da sua cadeirinha, mostrou o seu lindo rosto e, encarando o mestre Valentim, não pôde conter um sorriso malicioso.
A madrinha seguiu o exemplo da noiva. Abriu as cortinas, olhou. Mas não sorriu, brilhando apenas seus olhos com uma flama ousada e irresistível.
O cortejo foi seguindo, e Luís de Vasconcelos, que estava perto do mestre Valentim, com quem gostava muito de gracejar, principalmente a respeito do belo sexo, de que o feio arquiteto era famoso apaixonado, perguntou-lhe a meia-voz:
– Que lhe parecem aquelas moças, mestre?
– Pelo sorrir da noiva e pelo olhar da madrinha, adivinha-seque bem posso ter começado hoje a preparar aqui aposentos para ambas.
– Longe vá o agouro! – disse o vice-rei, afastando-se.
No entanto, chegara o cortejo nupcial à casa onde o esperavam o banquete e a festa.
Na sala, sentara-se a noiva ao lado da madrinha, e o cobiçoso noivo não tardou a ir ter com elas.
– Venho pedir-lhe contas de um sorriso – disse ele a noiva.
– Pois já? – observou a madrinha.
– Então? Preciso saber porque sorriu, passando em frente dacapela do Parto.
– Ri-me – respondeu a noiva, porque achei muito apropriadoque as obras da casa mais antipática do Rio de Janeiro fossem dirigidas pelo homem mais feio do mundo.
– Acha antipática, portanto, a capela de N. S. do Parto?
– A capela não. O recolhimento, sem dúvida.
– Mas por quê?
– Porque é um recurso da tirania dos maus maridos.
– Ah! Então receia que eu seja um grande tirano?
– Também não. Revolta-me a injustiça que sofre o meu sexo.Mas, quando mesmo eu fosse encarcerada no recolhimento do Desterro, não me conservaria aí por muito tempo.
– Que faria em tal caso?
– Incendiava-o.
– Ah! Sr. Gil Soares! – exclamou a madrinha. Tome cuidado.Veja que se casou com uma moça do fogo.
– Eu tenho as provas disso no meu coração – respondeu galantemente o noivo.
A conversação foi nesse ponto interrompida. Bastante, porém, durara, para se apreciar o caráter vivo e indiscreto da noiva.
Algumas palavras agora, para esclarecimento da história.
A noiva chama-se Matilde. Não ignoro, mas entendo que devo ocultar o seu nome de família. Contava essa moça 20 anos de idade. Tinha tido uma educação muito mais livre do que era de costume naquele tempo. Seu rosto era claro, regular, móbil e alegre. Seus cabelos castanhos. Seus olhos grandes, quase pretos, e sem contestação, formosos. Era, enfim esbelta, bonita, ardente e vaidosa.
A madrinha chamava-se Ana, e tinha o sobrenome ou alcunha de Campista, que não tirara do nome de seu pai, nem do de seu esposo. Contava perto de 30 anos, era alta, bem-feita, e, não podendo dizer-se bela, mostrava-se perigosamente voluptuosa pela cor morena carregada de seu rosto, pelo brilhantismo e audácia de seus olhos negros e por um não-sei-quê de provocador em seus sorrisos, em seus gestos e movimentos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.