Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Eu vou contando estas coisas sem o mais leve temor de acender empenhos de imitação do passado, porque a nossa atual sociedade contrasta absolutamente com a dos dois séculos anteriores. Não duvido que haja maridos a quem sorrisse o pensamento da restauração do recolhimento do Parto. Nenhum, porém, se lembraria de falar em tal. Pois hoje em dia fora mais fácil estabelecer um asilo onde as senhoras casadas prendessem os maridos do que ressuscitar a antiga providência.

Mas no reinado do século décimo oitavo ainda não se falava em emancipações das mulheres. Ainda não havia no Rio de Janeiro casas de bailes, nem teatro de S. Pedro de Alcântara, nem companhia italiana, nem a rua do Ouvidor anunciava as ricas lojas de modas, o poder e a influência dominadora do belo sexo.

Os maridos eram senhores ainda, e acharam tão sublime o recolhimento do Parto, que chegaram a reputá-lo insuficiente. E como não tivesse morrido mais algum Estêvão Dias de Oliveira, realizou a favor deles um vivo obra igual à que se tinha feito com o legado de um defunto.

Manuel da Rocha, e outros que a ele se reuniram, fundaram em 1764, junto à matriz da freguesia de S. Sebastião de Itaipu (ou Itaipuig) outro recolhimento, sob a dedicação de Santa Teresa, para mulheres a quem agradasse o retiro do século, ou a quem algumas circunstâncias obrigassem a ir habitá-lo por castigo de culpas. O edifício depressa ficou pronto, começou logo a ser povoado, e...

Eu peço aqui toda a atenção das senhoras que porventura fazem a honra de acompanhar-me também no meu passeio.

E Manuel da Costa, o principal fundador do recolhimento de Itaipu, recebeu desde então o título grandioso de Protetor do Bem Comum!

Como o chamaram pela sua parte as senhoras, não sei. Mas sou capaz de jurar que foram os maus maridos que inventaram aquele título, os maus maridos que desde 1764 puderam dizer às suas mulheres – “Olhem o Itaipu”!

No recolhimento do Parto ainda as pobres reclusas podiam por entre as grades da sua prisão ver o povo passar pelas ruas, ver nas janelas fronteiras e em todas as que, embora afastadas, a seus olhos se mostravam, senhoras, talvez algumas amigas que as saudassem com os lenços, talvez algum primo... algum mancebo muito amado que as consolassem, correspondendo-se com elas por meio da telegrafia amorosa. Podiam ouvir o ruído das festas, e também conversar às vezes do locutório. Mas no recolhimento de Itaipu o desterro era completo, completa para as pobres moças a solidão.

O recolhimento de Itaipu foi prosperando. Mas à medida que ele prosperava, decaía o de N. S. do Parto, e a tal ponto que, em 1787, tanto a sua administração como as obras e o material da casa acharam-se no mais lamentável abandono.

Que causas determinaram a decadência desse estabelecimento?

Disseram uns que a expulsão dos jesuítas, em 1759, arrefecera o zelo religioso dos habitantes do Brasil, ressentindo-se disso algumas piedosas instituições. Mas os fatos provam o contrário, e semelhante explicação não passou da roda das velhas confessadas dos padres da companhia.

Sustentaram outros que a decadência do recolhimento proviera da influência que exercia o belo sexo sobre o muito sensível vice-rei marquês do Lavradio. Mas ainda aqui o erro é positivo, porque o vice-rei marquês, sem dúvida muito apaixonado de todas as moças bonitas, e mesmo de muitas feias, era como S. Tomás, e queria que a seu respeito se dissesse também – façam o que ele diz e não o que ele faz.

Afirmaram, enfim, algumas senhoras que o fato era devido a um requinte de crueldade dos maus maridos, que, para mais atormentarem as suas mulheres, preferiam encerrá-las no recolhimento de Itaipu, esquecendo assim o de N. S. do Parto. As senhoras, porém, eram muito suspeitas para poderem ser imparciais juízes do caso.

O recolhimento do Parto decaiu, porque ainda não tinha rendas suficientes, e por que administradores desmazelados e sem capacidade deixaram que se fosse estragando a obra caridosa do bispo D. frei Antônio do Desterro.

Eis aí a melhor e a mais segura das explicações. Falta de dinheiro. Já viram lâmpada sem óleo conservar a sua luz? Desmazelo e incapacidade de administradores. Não estamos vendo todos os dias os resultados fatais de semelhante praga?

E ainda bem que para regenerar o recolhimento do Parto vão aparecer o vice-rei Luís de Vasconcelos e o seu braço direito, o mestre Valentim.

Mas também terá de mostrar-se, erguendo um facho de incendiária, uma mulher que violentamente se revoltou contra aquela instituição.

Deixai-me respirar. Contar-vos-ei esta curiosa história no próximo passeio.

II

O vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, apesar de ter já empreendido e adiantado diversas e importantes obras na cidade do Rio de Janeiro, não pôde ver a decadência e a ruína em que se achavam a capela e o recolhimento de N. S. do Parto sem sentir vivos desejos de regenerar uma e outro.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...145146147148149...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →