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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Acabado de morrer este preso, o espedaçam logo os velhos da aldeia, e tiram-lhe as tripas e fressura, que mal lavadas, cozem e assam para comer; e reparte-se a carne por todas as casas da aldeia e pelos hóspedes que vieram de fora para ver estas festas e matanças, a qual carne se coze logo para se comer nos mesmos dias de festas, e outra assam muito afastada do fogo de maneira que fica muito mirrada, a que este gentio chama moquém, a qual se não come por mantimento, senão por vingança; e os homens mancebos e mulheres moças provam-na somente, e os velhos e velhas são os que se metem nesta carniça muito, e guardam alguma da assada do moquém por relíquias, para com ela de novo tornarem a fazer festas, se se não oferecer tão cedo matarem outro contrário. E os hóspedes que vieram de fora a ver esta festa levam o seu quinhão de carne que lhe deram do morto, assada do moquém para as suas aldeias, onde como chegam fazem grandes vinhos para, com grandes festas, segundo sua gentilidade, os beberem sobre esta carne humana que levam, a qual repartem por todos da aldeia, para a provarem, e se alegrarem em vingança de seu contrário que padeceu, como fica dito.Acontece muitas vezes cativar um tupinambá a um contrário na guerra, onde o não quis matar para o trazer cativo para a sua aldeia, onde o faz engordar com as cerimônias já declaradas para o deixar matar a seu filho quando é moço e não tem idade para ir à guerra, o qual mata em terreiro, como fica dito, com as mesmas cerimônias; mas atam as mãos ao que há de padecer, para com isso o filho tomar nome novo e ficar armado cavaleiro, e mui estimado de todos. E se este moço matador, ou outro algum, se não quer riscar quando toma novo nome, contentam-se com se tingir de jenipapo, e deixar crescer o cabelo e tosquiá-lo, com as cerimônias atrás declaradas; e os que se riscam quando tomam nome novo, a cada nome que tomam fazem sua feição de lavor, que para eles é grande bizarria, para que se veja quantos nomes tem.


C A P Í T U L O CLXXV


Que trata das cerimônias que os tupinambás fazem quando morre algum, e como os enterram.


É costume entre os tupinambás que, quando morre qualquer deles, o levam a enterrar embrulhado na sua rede em que dormia, e o parente mais chegado lhe há de fazer a cova; e quando o levam a enterrar vão-no acompanhando mulher, filhas e parentes, se as tem, as quais vão pranteando até a cova, com os cabelos soltos sobre o rosto, estão-no pranteando até que fica bem coberto de terra; de onde se tornam para sua casa, onde a viúva chora o marido por muitos dias; e se morrem as mulheres destes tupinambás, é costume que os maridos lhes façam a cova, e ajudem a levar às costas a defunta, e se não tem já marido o irmão ou parente mais chegado lhe faz a cova.E quando morre algum principal da aldeia em que vive, e depois de morto alguns dias, antes de o enterrarem fazem as cerimônias seguintes. Primeiramente o untam com mel todo, e por cima do mel o empenam com penas de pássaros de côres, e põem-lhe uma carapuça de penas na cabeça e todos os mais enfeites que eles costumam trazer nas suas festas; e têm-lhe feito na mesma casa e lanço onde ele vivia, uma cova muito funda e grande, com sua estacada por derredor, para que tenha a terra que não caia sobre o defunto, e armam-lhe sua rede em baixo, de maneira que não toque o morto no chão; na qual rede o metem assim enfeitado, e põem-lhe junto da rede seu arco e flechas, e a sua espada, e o maracá com que costumava tanger, e fazem-lhe fogo ao longo da rede para se aquentar, e põem-lhe de comer num alguidar, e água num cabaço, como galinha; e como esta mata-lotagem está feita, e lhe põem também sua cangoeira de fumo na mão, lançam-lhe muita soma de madeira igual no andar da rede de maneira que não toque no corpo, e sobre esta madeira muita soma de terra, com ramas debaixo primeiro, para que não caia terra sobre o defundo; sobre a qual sepultura vive a mulher, como dantes. E quando morre algum moço, filho de algum principal, que não tem muita idade, metem-no em cócoras, atados os joelhos com a barriga, em um pote em que ele caiba, e enterram o pote na mesma casa debaixo do chão, onde o filho e o pai, se é morto, são chorados muitos dias.


C A P Í T U L O CLXXVI


Que trata do sucessor ao principal que morreu, e das cerimônias que faz sua mulher, e as que se fazem por morte dela também.

(continua...)

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