Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Se o piedoso e santo recolhimento abrisse as suas portas somente àquelas senhoras que voluntariamente fossem procurar o religioso retiro, não havia que dizer, ao menos naquele tempo. Se, além de recolhimento de velhas arrependidas, desvirtuado embora o pensamento que presidira à sua fundação, servisse para receber e educar meninas e jovens, havia muito que louvar, uma vez que a educação fosse ali bem dirigida. Mas o asilo que se levantara foi mais do que isso, foi uma terrível ameaça de pedra e cal, tornou-se em uma espécie de casa de correção feminina, em uma espécie de cadeia que fazia medo não só às más esposas como às esposas de maus maridos, e também às moças solteiras filhas de pais enfezados, cabeçudos e prepotentes.
Realmente era uma questão muito grave que se decidira contra o belo sexo à custa dos mil cruzados do finado, Estêvão Dias de Oliveira.
Naquele tempo (no bom tempo), em grande número de casos o marido não era um consorte, era um senhor, e as moças casavam sem saber com quem, viam os noivos no dia do casamento, porque os pais tomavam pelos noivos e noivas o trabalho de enlaçar-lhes os corações sem consultá-los. O pai do noivo e o pai da noiva namoravam-se mutuamente com todos os preceitos e regras da aritmética, e desde que se punham de acordo na discussão do dote, ficava resolvido que o rapaz e a rapariga se adoravam perdidamente, ainda que nunca se tivessem visto, e realizava-se o casamento.
Quantas uniões infelizes resultavam de semelhante prática pode-se bem calcular. Deviam por certo abundar os maridos tiranos e as mulheres vítimas, as mulheres infiéis e os maridos desgraçados, e verdadeiros purgatórios nas vidas que passavam muitos casais.
Está visto que era a mulher, o ente passivo, a senhora escrava, quem mais tinha de sofrer em tais circunstâncias sociais, e, sem o pensar, veio o bispo D. Antônio do Desterro acrescentar mais um tormento para as vítimas e as culpadas, fundando o recolhimento do Parto.
Em um ou outro caso, sempre por exceção, acontecia que alguma jovem mais esperta ou mais sonsinha chegava a amar algum mancebo sem licença do papai ou da mamãe, e tinha por isso a audácia de resistir ao projeto de casamento ajustado por estes com outro e sem consultá-la, vendo-se por isso condenada à prisão em um quarto escuro, jejuns de pão e água, e às vezes a castigos muito mais cruéis.
Mas os gemidos da vítima chegavam a incomodar os pais, e até a comover-lhes os corações. O recolhimento do Parto foi, portanto. um excelente recurso, e nele tiveram de entrar algumas donzelas desobedientes que se supunham com o direito de escolher maridos.
Acontecia às esposas ainda pior que às filhas. Umas porque realmente mentiam à fidelidade conjugal, outras porque, embora inocentes, eram aborrecidas por maridos indignos que se fingiam ultrajados na sua honra para se livrarem das pobres mulheres. Lá iam em castigo das faltas cometidas, ou sob pretexto de amores impuros, fazer penitência e corrigirem-se da perversidade do século no recolhimento do Parto.
Escusado é dizer que eu me refiro aqui somente aos pais prepotentes e testos, e aos maridos infelizes ou desmoralizados, sendo verdade que, apesar desses rudes e grosseiros costumes da sociedade dos séculos passados, muitos eram os casais que se felicitavam pela virtude e também pelo amor, e também não poucos os pais que não se ensurdeciam à natureza para serem opressores de seus filhos.
Entretanto, estas exceções não destruíam a regra que proviera daquela rudeza de costumes e da educação mais do que austera, quase bárbara, da sociedade daqueles tempos de despotismo do governo do Estado, e despotismo do governo das famílias.
Abusou-se, pois, não pouco, e certamente, como era de prever, do recolhimento do Parto, que se tornou um espectro ameaçador para muitas senhoras, e uma arma de prepotência e de disciplina doméstica para os homens.
Não havia fervura de briga de mulher com marido que não se abatesse com o encanto das terríveis palavras – “Olha o recolhimento do Parto!”
O marido voltava para casa depois da meia-noite sem explicar o motivo da sua ausência, via sem receio descoberto o segredo das suas infidelidades, negava à mulher um vestido novo para a festa de S. Sebastião, contrariava-lhe os desejos, zombava do seu amor, e se a vítima desprendia a voz e dava princípio a uma tempestade doméstica, o nobre Adão, sem se exaltar, sem se afligir, murmurava apenas – “Olha o recolhimento do Parto” – e a pobre Eva caía fulminada, quando não corria a abraçar o marido.
A idéia do bispo D. Antônio do Desterro tinha sido, portanto, aproveitada com admirável habilidade pelos maridos, e com razão condenada e aborrecida pelas senhoras, que maldiziam do prelado e teimavam em chamar o asilo – recolhimento do Desterro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.