Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Como os tupinambás vêem que os contrários que têm cativos estão já bons para matar, ordenam de fazer grandes festas a cada um, para as quais há grandes ajuntamentos de parentes e amigos, que para isso são chamados de trinta e quarenta léguas, para a vinda dos quais fazem grandes vinhos, que bebem com grandes festas; mas fazem-na muito maiores para o dia do sacrifício do que há de padecer, com grandes cantares, e à véspera em todo dia cantam e bailam, e ao dia se bebem muitos vinhos pela manhã, com motes que dizem sobre a cabeça do que há de padecer, que também bebe com eles. E os que cantam suas cantigas vituperando o que há de padecer e exalçando o matador, dizendo suas proezas e louvores; e antes que bebam os vinhos untam o cativo todo com mel de abelhas, e por cima desse mel o empenam todo com penas de cores, e pintam-no a lugares de jenipapo, e os pés com uma tinta vermelha, e metem-lhe uma espada de pau nas mãos para que se defenda de quem o quer matar com ela, como puder; e como estes cativos vêem chegada a hora em que hão de padecer, começam a pregar e dizer grandes louvores de sua pessoa, dizendo que já estão vingados de quem os há de matar, contando grandes façanhas suas e mortes que deram aos parentes do matador, ao qual ameaçam e a toda a gente da aldeia, dizendo que seus parentes os vingarão. E começam a levar este preso a um terreiro fora da aldeia, que para esta execução está preparado, e metem-no entre dois moirões, que estão metidos no chão, afastados um do outro por vinte palmos, pouco mais ou menos, os quais estão furados, e por cada furo metem as pontas das cordas com que o contrário vem preso, onde fica preso como touro de cordas, onde lhe as velhas dizem que se farte de ver o sol, pois tem o fim tão chegado; ao que o cativo responde com grande coragem, que pois ele tem vingança da sua morte tão certa, que aceita o morrer com muito esforço. E antes de lhe chegar a execução, contemos como se prepara o matador.
C A P Í T U L O CLXXIII
Que trata de como se enfeita e aparata o matador.
Costumam os tupinambás, primeiro que o matador saia do terreiro, enfeitá-lo muito bem, pintá-lo com lavores de jenipapo todo o corpo, e põem-Ihe na cabeça uma carapuça de penas amarelas e um diadema, manilhas nos braços e pernas, das mesmas penas, grandes ramais de contas brancas sobraçadas, e seu rabo de penas de ema nas ancas e uma espada de pau de ambas as mãos muito pesada, marchetada com continhas brancas de búzios, e pintada com cascas de ovos de cores, assentado tudo, em lavores ao seu modo, sobre cera, o que fica mui igualado e bem feito; e no cabo desta espada têm grandes penachos de penas de pássaros feitas em molho e dependuradas da empunhadura, a que eles chamam embagadura; e como o matador está prestes para receber esta honra, que entre o gentio é a maior que pode ser, ajuntam-se seus parentes e amigos e vão-no buscar à sua casa; de onde o vêm acompanhando com grandes cantares e tangeres dos seus búzios, gaitas e tambores, chamando-lhe bem-aventurado, pois chegou a ganhar tamanha honra, como é vingar a morte de seus antepassados, e de seus irmãos e parentes; e com este estrondo entra no terreiro da execução, onde está o que há de padecer, que o está esperando com grande coragem com uma espada de pau na mão, diante de quem chega o matador, e lhe diz que se defenda, porque vem para o matar, a quem responde o preso com mil roncarias; mas o solto remete a ele com a sua espada de ambas as mãos, da qual se quer desviar o preso para alguma banda, mas os que têm cuidado das cordas puxam por elas de feição que o fazem esperar a pancada; e acontece muitas vezes que o preso, primeiro que morra, chega com a sua espada ao matador que o trata muito mal, sem embargo de lhe não deixarem as cordas chegar a ele; por mais que o pobre trabalhe, não lhe aproveita, porque tudo é dilatar a vida mais dois credos, onde a rende nas mãos do seu inimigo, que lhe faz a cabeça em pedaços com sua espada; e como se acaba esta execução, tiram-no das cordas e levam-no para onde se costuma repartir esta carne; e acabado o matador de executar sua ira no cativo, toma logo entre si algum nome, o qual declara depois com as cerimônias que ficam ditas atrás; e vai-se do terreiro recolher para o seu lanço, onde tira as armas e petrechos com que se enfeitou; e a mesma honra ficam recebendo aqueles que primeiro pegaram dos cativos na guerra, do que tomam também novo nome, com as mesmas festas e cerimônias que já ficam ditas; o que se não faz com menos alvoroço que aos próprios matadores.
C A P Í T U L O CLXXIV
Em que se declara o que os tupinambás fazem do contrário que mataram.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.