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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

No ano de 1742 foi lançada a primeira pedra do estabelecimento, que em breve se mostrou pronto para receber e guardar não poucas arrependidas.

Mas não foram somente arrependidas que para o novo asilo entraram.

Duas classes de reclusas o povoaram. A primeira foi composta de algumas velhas e matronas, umas fugindo cansadas dos enganos do mundo, outras desprezadas pelo mundo delas cansado. Eram as recolhidas voluntárias. A segunda constou de senhoras casadas e moças solteiras obrigadas a retirar-se para essa reclusão em castigo de faltas cometidas ou de supostas faltas, e em punição de desobediência à vontade de seus pais.

Tratarei deste estabelecimento em relação ao segundo fim a que foi destinado. Esquecerei as recolhidas voluntárias, que estavam no seu direito, divorciando-se e separando-se do mundo. Faziam muito bem em esconder-se de um mundo de que não gostavam e que provavelmente já não gostava delas. O que vou dizer não se entende, pois, com as voluntárias.

A segunda classe das recolhidas terá quase exclusiva menção neste passeio, que vai tocar muito de perto nos direitos e na causa social do sexo feminino.

Creio que não havia inconveniência em obrigar a amar exclusivamente a Deus uma senhora casada que tivesse amado demasiadamente a um próximo que não era seu marido. Parece, porém, que alguns lamentáveis abusos misturaram no recolhimento esposas inocentes com esposas culpadas.

Sobretudo, julgaram as senhoras que era uma iniqüidade estabelecer-se uma reclusão para as esposas infiéis, onde não havia reclusão para os esposos infidelíssimos.

Devemos todos acreditar que o pensamento do bispo que fez construir aquele recolhimento era piedoso e santo. Mas certo é que os homens se aproveitaram do asilo para atormentar como acabo de dizer, algumas inocentes, e castigar algumas culpadas senhoras, que por isso rogaram pragas ao velho e venerando prelado.

O bispo denominara acertadamente o asilo que levantara recolhimento de N. S. do Parto. As senhoras, porém, em suas conversações particulares, davam-lhe o nome de recolhimento do Desterro, não porque Antônio do Desterro se chamasse o prelado, mas porque um desterro foi considerado por elas aquele asilo.

E não eram somente as senhoras casadas que maldiziam do recolhimento, também as solteiras antipatizavam com ele, pois, sofismado o fim para que se criara o asilo, encerravam-se ali meninas e moças ainda não casadas a pretexto de irem receber no piedoso retiro educação moral e religiosa.

É preciso dizer que o bispo D. Antônio do Desterro foi sempre pouco simpático ao belo sexo, e carregou com as culpas dos abusos a que deu lugar o recolhimento do Parto.

Explicarei os motivos dessa falta de simpatia, e aposto que ainda atualmente as senhoras hão de achar muita razão às suas antepassadas.

D. Frei Antônio do Desterro, prelado distinto por suas virtudes e sabedoria, e pelo seu zelo, era tão simples e humilde que, vestido sempre de monge, conservava também a coroa regular, conformando-se com o mesmo rito no ofício divino. Severo consigo, justo, mas compassivo com todas as suas ovelhas, ativo fiscalizador do proceder dos párocos, mantenedor do culto, benfeitor das igrejas e conventos, e especialmente da mitra fluminense, que lhe deve, além de outros legados, o da chácara do Rio Comprido, que todos conhecem pelo nome de Chácara do Bispo, caiu, apesar de tudo isso, no desagrado das senhoras por um pecado de mau gosto e por um pecado de rabugem.

O pecado de mau gosto foi cometido pelo bispo, quando proibiu que aparecessem nas procissões da quaresma os penitentes de açoites e outras figuras que tornavam mais divertido o espetáculo religioso. Os penitentes de açoites, sobretudo, trajando ricos vestidos e açoitando-se ou fingindo açoitar-se, davam muitas graças às procissões, apraziam às senhoras, e o prelado teve a idéia infeliz de acabar com aquela variedade de entretenimento.

O pecado de rabugem foi pior ainda. O bispo proibiu, sob pena de excomunhão maior, que os homens se reunissem nos adros e às portas das igrejas para verem entrar e cortejarem as belas devotas. Que estas falassem e conversassem com os homens nestes lugares. E que, enfim, fossem as senhoras às igrejas por qualquer motivo desde o tanger da Ave-Maria até à hora matutina, excetuando-se desta última proibição unicamente as pobres que concorressem às missas e confissões de madrugada.

Não discutirei a procedência das acusações que as senhoras faziam ao velho bispo, e pelas quais o consideravam rabugento e impertinente. Certo é, porém, que os abusos de que algumas foram vítimas depois da fundação do recolhimento de N. S. do Parto deram até certo ponto justificado fundamento, não ao seu ressentimento contra o prelado, mas à sua inimizade ao asilo.

(continua...)

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