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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Tanto que os tupinambás chegam duas jornadas da aldeia de seus contrários não fazem fogo de dia, por não serem sentidos deles pelos fumos que se vêm de longe; e ordenam-se de maneira que possam dar nos contrários de madrugada, e em conjunção de lua cheia para andarem a derradeira jornada de noite pelo luar, e tomarem seus contrários desapercebidos e descuidados; e em chegando à aldeia dão todos juntos tamanho urro, gritando, que fazem com isso e com suas buzinas e tamboris grande espanto; e desta maneira dão o seu salto nos contrários; e do primeiro encontro não perdoam a grande nem a pequeno, para o que vão apercebidos de uns paus à feição de arrochos, com uma quina por uma ponta, com o que da primeira pancada que dão na cabeça ao contrário, lha fazem em pedaços. E há alguns destes bárbaros tão carniceiros que cortam aos vencidos, depois de mortos, suas naturas, assim aos machos como às fêmeas, as quais levam para darem a suas mulheres que as guardam depois de mirradas no fogo, para nas suas festas as darem de comer aos maridos por relíquias, o que lhes dura muito tempo; e levam os contrários que não mataram na briga, cativos, para depois os matarem em terreiro com as festas costumadas.No despojo desta guerra não tem o principal coisa certa, e cada um leva o que pode apanhar, e quando os vencedores se recolhem, põem fogo às casas da aldeia em que deram, que são cobertas de palmas até o chão. E recolhem-se logo andando todo o que lhes resta do dia, e toda a noite pelo luar com o passo mais apressado, trazendo suas espias detrás, por se arrecearem de se ajuntarem muitos do contrário, e virem tomar vingança do acontecido a seus vizinhos, como cada dia lhes acontece. E sendo caso que os tupinambás achem seus contrários apercebidos com a sua cerca feita, e eles se atrevem a os cercar, fazem-lhes por de redor outra contracerca de rama e espinhos muito liada com madeira que metem no chão, a que chamam caiçá, pela qual enquanto verde não há coisa que os rompa, e ficam com ela seguros das flechas dos contrários, a qual caiçá fazem bem chegada à cerca dos contrários, e de noite falam mil roncarias, e jogam as pulhas de parte a parte, até que os tupinambás abalroam a cerca ou levantam cerco, se se não atrevem com ele, ou por lhes faltar o mantimento.


C A P Í T U L O CLXIX
Que trata de como os contrários dos tupinambás dão sobre eles quando se recolhem.


Acontece muitas vezes aos tupinambás, quando se vêm recolhendo para suas casas, dos assaltos que deram em seus contrários, ajuntar-se grande soma deles, e virem-lhes no alcance até lhes não poderem fugir; e ser-lhes necessário esperá-los, o que fazem ao longo da água, onde se fortificam fazendo sua cerca de caiçá; o que fazem com muita pressa para dormirem ali seguros de seus contrários, mas com boa vigia; onde muitas vezes são cercados e apertados dos contrários; mas os cercados vêem por detrás desta cerca a quem está de fora, para empregarem todas as suas flechas à vontade, e os de fora não vêem quem lhes atira; e se não vêm apercebidos para os abalroarem, ou de mantimentos, para continuarem com o cerco, se tornam a recolher, por não poderem abalroar aos tupinambás como queriam. E estes assaltos, que os tupinambás vão dar aos tupinaés e outros contrários seus, lhes acontece também a eles por muitas vezes, do que ficam muito maltratados, se não são avisados primeiro, e apercebidos; mas as mais da vezes eles são os que ofendem a seus inimigos, e são mais prevenidos quando vêem nestas afrontas de mandar pedir socorro a seus vizinhos, e lho vêem logo dar com muita presteza.Quando os tupinambás estão cercados de seus contrários, as pessoas de mais autoridade dentre eles lhes andam pregando de noite para que se esforcem e pelejem como bons cavaleiros, e que não temam seus contrários, porque muito depressa se verão vingados deles porque lhes não tardará o socorro muito; e as mesmas pregações costumam fazer quando eles têm cercado seus contrários, e os querem abalroar; e antes que dêem o assalto, estando juntos todos à noite atrás, passeia o principal de redor dos seus, e lhes diz em altas vozes o que hão de fazer, e os avisa para que se apercebam, e estejam alerta; e as mesmas pregações lhes faz, quando andam fazendo as cercas de caiçá, para que se animem, e façam aquela obra com muita pressa; e quando os tupinambás pelejam no campo, andam saltando de uma banda para outra, sem estarem nunca quedos, assobiando, dando com a mão no peito, guardando-se das flechas que lhes lançam seus contrários, e lançando-lhes as suas com muita fúria.


C A P Í T U L O CLXX


Em que se declara que o tupinambá que matou o contrário, toma logo nome, e as cerimônias que nisso fazem.

(continua...)

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