Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
A administração pública no Brasil, quando não caminha para trás, espanta pela sua morosidade. Se escapa de ter a natureza de caranguejo, não escapa de ter a natureza de preguiça. Pois olhem, não sei qual dos dois animais é mais feio!
Em nome da mocidade estudiosa, eu peço ao governo que tenha mais atividade e mais zelo, e que se lembre das obras de que indispensavelmente carece o internato do Colégio de Pedro II.
Lembre-se ao menos o governo de que este colégio se honra com o nome do Imperador, e de que o Imperador o distingue e protege, e não perde uma única ocasião de manifestar o interesse que por ele toma.
Basta.
Outra vez aos carros, meus bons amigos! Voltemos de novo à cidade, onde nos esperam outros passeios, sem dúvida mais breves e menos monótonos do que os últimos, a que hoje ponho termo, despedindo-me do Imperial Colégio de Pedro II.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A Capela e o Recolhimento de N. S. do Parto
I
OU César ou João Fernandes. Assim diz um rifão antigo, que com essa injustíssima e cruel antítese faz no nome e sobrenome João Fernandes um sinônimo de nonada, como outro fez também de Manuel de Sousa um sinônimo de tolo.
Protesto contra esses rifões revoltantes e iníquos, e comigo protesta igualmente o Brasil, que debaixo dos pontos de vista da política e da administração, tem sido elevado às grimpas por não sei quantas dúzias de Joões Fernandes e Manuéis de Sousa que se resolveram a felicitá-lo.
Mas, pela minha parte, não me limitarei a protestar; antes, estou firmemente disposto a provar com a lógica irresistível dos fatos a injustiça daqueles rifões. É um serviço que desejo prestar aos estadistas das dúzias de que acima falei, e dou parabéns à minha fortuna, porque já no meu passeio de hoje encontrarei logo ao encetá-lo um João Fernandes, que no Rio de Janeiro se tornou recomendável por uma ação meritória.
Naturalmente hei de nos meus passeios esbarrar mais tarde com algum Manuel de Sousa merecedor de elogios, e ficará por esse modo fundada com a necessária solidez a glória da maior parte dos estadistas de minha terra.
Apesar deste meu empenho há de o passeio de hoje ser feito a galope. Os meus companheiros não se arrepiem com a palavra que acabo de empregar, por nos acharmos todos a pé. Aquele substantivo cavalar ficou definitivamente humanizado desde que nos bailes e nos salões mais elegantes galoparam noites sem conta homens tão sábios como a enciclopédia, e senhoras tão delicadas e mimosas como as violetas e as pumilas.
Passearei, pois, a galope, e é indispensável que o faça, porque, se a custo achei quem me perdoasse o vagar com que passeei por um convento de frades, pela igreja dos padres e por um colégio de meninos e rapazes, não haveria quem me absolvesse e não fizesse maus juízos de mim, se eu procedesse do mesmo modo hoje que, visitando uma das nossas antigas capelas, terei de penetrar também em um recolhimento de mulheres sem voto, por conseqüência, recolhimento inflamável e tão inflamável que até houve uma noite em que chegou a incendiar-se.
Eia, pois, meus companheiros de passeio, a galope! Vamos ou pela Rua do Parto, dantes tão famosa pelas excelentes balas que tomaram dela o nome e pelos cupidos de alfenim que ali se vendiam, ou pela Rua da Ajuda, célebre pela poderosa Floresta (casa assim chamada) onde se planejou o golpe de estado de 30 de julho de 1832, que felizmente abortou, ou pela Rua de S. José, que nos lembra as primeiras campanhas da homeopatia na cidade do Rio de Janeiro, ou enfim, pela Rua dos Ourives, onde quase não há mais ourives. Vamos chegar à capela de N. S. do Parto.
Façamos de conta que viemos pela primeira daquelas ruas. Eis aí a capela, não duvideis. A verdade nem sempre é verossímil. Podeis acreditar que estais diante da pequena igreja de N. S. do Parto.
Reconheço a procedência e o justo fundamento das vossas dúvidas. Este casarão que temos à vista pode muito bem não parecer capela ou igreja a quem ainda não ouvisse dizer que o é alguma pessoa insuspeita e digna de crédito.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.