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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Têm os tupinambás grande conhecimento da terra por onde andam, pondo o rosto no sol, por onde se governam; com o que atinam grandes caminhos pelo deserto, por onde nunca andaram; como se verá pelo que aconteceu já na Bahia, de onde mandaram dois índios destes tupinambás degredados pela justiça por seus delitos, para Rio de Janeiro, onde foram levados por mar; os quais se vieram de lá, cada um por sua vez, fugidos, afastando-se sempre do povoado, por não ser sentidos por seus contrários; e vinham sempre caminhando pelos matos; e desta maneira atinaram com a Bahia, e chegaram à sua aldeia, de onde eram naturais a salvamento, sendo caminho mais de trezentas léguas.Costuma este gentio, quando anda pelo mato sem saber novas do lugar povoado, deitar-se no chão, e cheirar o ar, para ver se lhe cheira a fogo, o qual conhecem pelo faro a mais de meia légua, segundo a informação de quem com eles trata mui familiarmente; e como lhe cheira a fogo, se sobem às mais altas árvores que acham, em busca de fumo, o que alcançam com a vista de mui longe, o qual vão seguindo, se lhes vem bem ir aonde ele está; e se lhes convém desviar-se dele, o fazem antes que sejam sentidos; e por os tupinambás terem este conhecimento da terra e do fogo, se faz muita conta deles, quando se oferece irem os portugueses à guerra a qualquer parte, onde os tupinambás vão sempre adiante, correndo a terra por serem de recado, e mostrando à mais gente o caminho por onde hão de caminhar, e o lugar onde se hão de aposentar cada noite.


C A P Í T U L O CLXVII
Que trata de como os tupinambás se apercebem para irem à guerra.


Como os tupinambás são muito belicosos, todos os seus fundamentos são como farão guerra aos seus contrários; para o que se ajuntam no terreiro da sua aldeia as pessoas mais principais, e fazem seus conselhos, como fica declarado; onde assentam a que parte hão de ir dar a dita guerra, e em que tempo; para o que se notifica a todos que se façam prestes de arcos e flechas, e alguns paveses, que fazem de um pau mole e muito leve, e as mulheres entendem em lhes fazerem a farinha que hão de levar, a que chamam de guerra; porque dura muito, para se fazer a dita guerra, de onde tomou o nome; e como todos estão prestes de suas armas e mantimentos, às noites antes da partida anda o principal pregando ao redor das casas, e nessa pregação lhes diz onde vão, e a obrigação que têm de ir tomar vingança de seus contrários, pondo-lhes diante a obrigação que têm para o fazerem e para pelejarem valorosamente; prometendo-lhes vitória contra seus inimigos, sem nenhum perigo da sua parte, de que ficará deles memória para os que após eles vierem cantar em seus louvores; e que pela manhã comecem de caminhar. E em amanhecendo, depois de almoçarem, toma cada um seu quinhão de farinha às costas, e a rede em que há de dormir, seu pavês e arco e flechas na mão, e outros levam além disto uma espada de pau a tiracolo. Os roncadores levam tamboril, outros levam buzinas, que vão tangendo pelo caminho, com que fazem grande estrondo, como chegam à vista dos contrários. E os principais deste gentio levam consigo as mulheres carregadas de mantimentos, e eles não levam mais que a sua rede e armas às costas, e arco e flechas na mão. E antes que se abalem, faz o principal capitão da dianteira, que eles têm por grande honra, o qual vai mostrando o caminho e o lugar onde hão de dormir cada noite. E a ordenança com que se põe a caminho, é um diante do outro, porque não sabem andar de outra maneira; e como saem fora dos seus limites, e entram pela terra dos contrários, levam ordinariamente suas espias adiante que são sempre mancebos muito ligeiros, que sabem muito bem este ofício; e com muito cuidado, os quais não caminham cada dia mais de légua e meia até duas léguas, que é o que se pode andar até as nove horas do dia, que o tempo em que aposentam seu arraial, o que fazem perto dágua, fazendo suas choupanas, a que chamam tejupares, as quais fazem arruadas, deixando um caminho pelo meio delas; e desta maneira vão fazendo suas jornadas, fazendo fogos nos tajupares.


C A P Í T U L O CLXVIII
Que trata de como os tupinambás dão em seus contrários.

(continua...)

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