Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Ao lado direito do pátio comunicam-se com a varanda cinco salas, das quais as quatro primeiras são destinadas para as aulas, estudos nas horas de silêncio, e também para recreio dos alunos. E a última é uma das da rouparia.
No fundo, o pátio termina diante de três salas. Uma, que é a segunda da rouparia, outra que é a sala de aula, e a terceira que serve de despensa.
Do lado esquerdo do pátio há uma boa sala de aula, e além desta a do refeitório, que tem 96 palmos de comprimento sobre 34 de largura, e separa-se do pátio por uma elegante varanda de arcaria.
No pavimento superior há três salas na frente. A da extrema direita é a enfermaria, a do centro um dormitório que admite dezenove leitos, e a do lado esquerdo é da habitação do vice-reitor. Das janelas destas salas os olhos do observador enlevam-se, contemplando um quadro magnífico da natureza, já um pouco embelecido pela mão do homem. À mão direita vêem-se montes soberbos, na frente e à esquerda um espaçoso vale semeado de jardins, casas de campo e outeiros graciosos.
Um corredor se estende pelo meio do pavimento superior, abre portas para as salas da frente, e para o fundo se comunica com uma outra sala de dormitório, que contém doze camas. Deste dormitório, enfim, passa-se para um espaçoso salão que se estende pelo lado esquerdo do pátio, e que tem cento e quarenta e um palmos de comprimento sobre cinqüenta e dois de largura.
Este salão é um dormitório que admite setenta leitos.
Na grande área que cerca o edifício vêem-se ao lado direito deste todas as disposições necessárias para os trabalhos da ginástica.
Agora que concluí tudo quanto me pareceu necessário descrever no edifício do internato, terminarei este passeio com algumas breves considerações.
Tratando do externato, falei em geral do Imperial Colégio de Pedro II, e o que neste sentido referi aplica-se também ao internato.
Os alunos do internato, recebendo a sagrada imagem de S. Joaquim da antiga igreja do colégio, ficaram possuídos da justa e louvável devoção que desde o século passado excitava este velho e santo patrono, e anualmente o festejam com o possível brilhantismo, sendo muito concorrida a festa que se celebra em honra dele no internato.
Descrevendo o edifício que acabamos de visitar esqueceu-me dizer, e era preciso fazê-lo, que não somente todas as salas do pavimento inferior que cercam o pátio pelos lados direito e esquerdo e pelo fundo, mas ainda o grande salão do pavimento superior, foram construídos de 1857 a 1860 à custa do governo, que deu assim mais algumas proporções à casa insuficiente em que se estabeleceu o internato.
As novas obras têm sido executadas com habilidade, harmonizando-se tanto quanto é possível com a casa que se achou feita e adaptando-se ao fim para que elas se destinam.
São já por certo notáveis os melhoramentos. Entretanto, é indispensável que ainda muito mais se faça, e depressa.
Ora, infelizmente depressa, ou ao menos a tempo, quase nada se executa no Brasil.
Desde 1858 se observa que muitos meninos que pedem para serem admitidos no internato ficam sem conseguir o que desejam, por falta de acomodações no estabelecimento.
Nos últimos meses de 1860, a imprensa da capital bradou pela necessidade de se darem maiores proporções ao edifício do internato, e lembrou ao governo a conveniência de se aproveitar o tempo das férias, dois meses, para se adiantarem as obras necessárias.
O governo reconheceu a procedência e justiça de tal pedido, e os mandou ou fez começar os trabalhos para aumento do edifício do internato depois de abertas as aulas, em 1861!
Atualmente, e chegamos ao princípio das férias de 1861, é positivo que o internato não pode acrescentar mais um único leito nos seus dormitórios, e que, por conseqüência, em 1862, só receberá tantos novos alunos quantos forem os antigos que se despedirem. E o governo, que de tudo isso tem conhecimento, o governo, que tem a certeza de que se hão de contar por dezenas os meninos que pretenderem serem admitidos no internato, ainda não mandou dar começo às obras que o estabelecimento reclama indispensavelmente para corresponder ao menos por metade às justas exigências do país.
Um falso princípio de falsíssima economia tem feito com que vão sendo executados aos poucos os trabalhos de que o internato do Imperial Colégio precisa instantemente. Em um ano, fez-se uma nova sala. No ano seguinte, uma outra, mais tarde empreendem-se novas construções, e no fim de cem anos se completará o que se poderia realizar em alguns meses com uma despesa evidentemente menos avultada.
E além desse erro grave de economia, a população vai sofrendo, e o internato é obrigado a trancar as suas portas e a despedir grande número de meninos, para quem os pais vêm pedir o cultivo da inteligência.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.