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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Quando o principal da aldeia quer praticar algum negócio de importância, manda recado aos índios de mais conta, os quais se ajuntam no meio do terreiro da aldeia, onde em estacas que têm para isso metidas no chão, armam suas redes de redor da do principal, onde também se chegam os que querem ouvir estas práticas, porque entre eles não há segredo; os quais se assentam todos em cócaras, e como tudo está quieto, propõe o principal sua prática, a que todos estão muito atentos; e como acaba sua oração, respondem os mais antigos cada um por si; e quando um fala, calam-se todos os outros, até que vêm a concluir no que hão de fazer; sobre o que têm suas alterações, muitas vezes. E alguns dos principais que estão neste conselho, levam algumas cangoeiras de fumo, de que bebem; o que começa de fazer o principal primeiro; e para isso leva um moço, que lhe dá a can-goeira acesa, e como lhe toma a salva, manda a cangoeira a outro que não a tem, e assim se revezam todos os que não a têm, com ela; o que estes índios fazem por autoridade, como os da Índia comem o bétele, em semelhantes ajuntamentos; o que também fazem muitos homens brancos, e todos os mamelucos; porque tomam este fumo por mantença, e não podem andar sem ele na boca, aos quais dana o bafo e os dentes, e lhes faz mui ruins cores. Esta cangoeira de fumo é um canudo que se faz de uma folha de palma seca, e tem dentro três e quatro folhas secas de erva-santa, a que os índios chamam petume, a qual cangoeira atam pela banda mais apertada com o fio, onde estão as folhas de petume, e acendem esta cangoeira pela parte das folhas de petume, e como tem brasa, a metem na boca, e sorvem para dentro o fumo, que logo lhe entra pelas cachagens, mui grosso, e pelas goelas, e sai-lhe pelas ventas fora com muita fúria: como não podem sofrer este fumo, tiram a cangoeira fora da boca.


C A P Í T U L O CLXV
Que trata de como se este gentio cura em suas enfermidades.


São os tupinambás mui sujeitos à doença das boubas, que se pegam uns aos outros mormente enquanto são meninos, porque se não guardam de nada; e têm para si que as hão de ter tarde ou cedo, e que o bom é terem-nas enquanto são meninos, os quais não fazem outro remédio senão fazê-las secar, quando lhe saem para fora, o que fazem com as tingirem com jenipapo; e quando isto não basta, curam-lhes estas bostelas das boubas com a folha de caraoba, de cuja virtude temos já feito menção, e como se estas bostelas secam, têm para si que estão sãos deste mau humor, e na verdade não têm dores nas juntas como se elas secam. Em alguns tempos e lugares, mais que outros, são estes índios doentes de terçãs e quartãs, que lhes nascem de andar pela calma, sem nada na cabeça, e de quando estão mais suados se banharem com água fria, metendo-se nos rios e nas fontes, muitas vezes ao dia pelo tempo da calma; ou quando trabalham, que estão cansados e suados; às quais febres não fazem nenhuma cura senão comendo uns mingaus, que são uns caldos de farinha de carimã, como já fica dito, que são muito leves e sadios; e untam-se com água do jenipapo, com o que ficam todos tintos de preto, ao que têm grande devoção.Curam estes índios algumas apostemas e bexigas com sumo de ervas de virtude, que há entre eles, com que fazem muitas curas muito notáveis, como já fica dito atrás; e quando se sentem carregados da cabeça, sarjam nas fontes, e aos meninos sarjam-nos na pernas, quando têm febre, mas em seco; o que fazem as velhas com um dente de cotia muito agudo, que têm para isso.Curam as grandes feridas e flechadas com umas ervas, que chamam cabureíba, que é milagrosa, e com outras ervas, de cujas virtudes fica dito atrás no seu título; com as quais curam o cano, que se lhes enche muitas vezes de câncer; e as flechadas penetrantes e outras feridas, de que se vêem em perigo, curam por um estranho modo, fazendo em cima do fogo um leito de varas largas umas das outras, sobre as quais deitam os feridos, com as feridas boca abaixo em cima deste fogo, pelas quais com a quentura se lhes sai todo o sangue que têm dentro e a umidade; e ficam as feridas sem nenhuma umidade; as quais depois curam com óleo e o bálsamo, ou ervas, de que já fizemos menção, com o que têm saúde poucos dias; e não há entre este gentio médicos assinalados, mas são-no muito bons os recochilhados. Destes índios andarem sempre nus, e das fregueirices que fazem dormindo no chão, são muitas vezes doentes de corrimentos, a que eles chamam caruaras, de que lhes doem as juntas; das quais são os feiticeiros grandes médicos, chupando-lhes com a boca o lugar onde lhes dói, onde às vezes lhes metem os dentes, e tiram da boca algum pedaço de ferro, ou outra coisa, que lhes metem na cabeça tirar daquele lugar onde chupavam, e que quando lhes doía lhes saíra fora, onde lhes tingem com jenipapo, com que dizem que se acha logo bom.


C A P Í T U L O CLXVI
Que trata do grande conhecimento que os tupinambás têm da terra.

(continua...)

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