Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
E o mais interessante é que, quando um professor deixa de dar aula, perde a gratificação correspondente ao dia em que faltou, e também perde a ajuda de custo. Somados, porém, estes dois prejuízos, ficam eles ainda muito aquém da despesa que se faz com a viagem. De modo que o professor ganha mais dinheiro não indo ao colégio do que ganha quando comparece nele, o que chegaria a fazer supor que o governo paga a excita os professores do Colégio de Pedro II para não irem ao internato.
Esta inocente e brevíssima conversação que acabo de ter com os meus companheiros de passeio fez-nos passar, sem que o sentíssemos, além de casa de correção e do bairro de Mata-porcos. O resto da viagem é tão agradável, que não precisa ser conversada. O nosso carro vai rodando pela Rua do Engenho Velho, e portanto, por entre jardins.
Eis-nos chegados. Aí está junto do pontilhão a antiga cruz de pau com a sua caixinha das almas, que um vigário da freguesia do Engenho Velho mandou ali levantar para recolher as esmolas dos fiéis que passassem.
Dobramos para a Rua de S. Francisco Xavier, e encontramos o internato na primeira chácara que nos fica à mão esquerda.
O internato está estabelecido na antiga chácara do Mata, e tem ao lado direito uma casa de secos e molhados, verdadeira e completa venda da roça, e ao lado esquerdo a matriz da freguesia do Engenho Velho. E (que vergonha!), a casa de secos e molhados ou a venda da roça, apesar de velha e feia, se apresenta em estado muito menos lamentável do que a igreja, que se acha tão arruinada que entrar nela é já um perigo, e manter ali o culto divino é uma indecência.
A frente da chácara em que se estabeleceu o internato é defendida por um muro que sustenta uma gradaria de ferro. No centro, abre-se em par um portão também de ferro.
No meio de uma área espaçosa e ornada de algumas árvores que oferecem aprazível sombra levanta-se a casa do internato, que consta de dois pavimentos. Ao lado esquerdo desta, vê-se uma outra de um único pavimento, e que foi mandada construir pelo governo para habitação do reitor.
Previno-vos desde já que não encontrareis aqui as disposições vastas e apropriadas que vimos no edifício do externato. Mas a razão é simples. Lá, temos uma casa construída de propósito para o mister, em que continua e continuará a ser empregada. Aqui, aproveitou-se o que se achou em uma casa particular, e a que se tem ido adicionando novos cômodos, que aliás ainda não são suficientes.
O edifício do internato apresenta de frente no pavimento inferior duas portas nas extremidades, uma no centro e quatro janelas. E no superior sete janelas com sacadas de ferro.
O pavimento superior é assobradado, e sobe-se para ele por escadas de pedra que não vão além de três degraus.
Na extrema direita está a portaria, pequena sala que tem para fora a porta da entrada e uma janela; ao lado esquerdo outra porta que se comunica com a sala da capela; do lado oposto, primeiro uma janela e depois a escada principal para o pavimento superior, e ao fundo outra porta que abre para um corredor, seguindo o qual deixam-se à mão direita dois quartos, e encontra-se um outro corredor que forma com este um ângulo reto.
O novo corredor divide o pavimento em duas partes, mas incompletamente. Para a frente abre três portas para uma sala espaçosa, que era dantes um dormitório, e é agora a capela provisória do internato, tendo no seu altar a imagem de S. Joaquim, que é a mesma da antiga igreja de S. Joaquim na cidade. Esta sala comunica-se de um lado por uma porta com a saleta da portaria, do outro lado por outra com um dormitório, onde chegaremos em breve, e abre para a frente uma outra porta e duas janelas. A capela é tão simples e modesta como decente.
O corredor não divide o pavimento inferior completamente em duas partes, porque vai acabar diante da porta de uma bela sala que se estende da frente para o fundo, por todo o lado esquerdo da antiga casa, e abre uma porta e janela para a frente e janelas para o lado esquerdo e para o fundo. Esta sala serve de dormitório e admite dezesseis leitos guardada entre eles a distância de quatro palmos. É também nela que têm lugar os exames no fim dos anos letivos.
Indo da direita para a esquerda, a outra parte da casa que o corredor divide contém uma excelente sala que é a secretaria do internato, e em seguida uma saleta ou largo e curto corredor, onde está o livro do ponto; depois, uma outra saleta que se transformou em dois quartos destinados a servirem de prisão para os alunos que essa pena merecem.
E enfim, uma segunda escada para o pavimento superior.
Da saleta do livro do ponto desce-se para uma varanda com teto de zinco sustentado por varões de ferro, que cerca pela frente e pelo lado direito um pátio quadrado a que prometem encher de deleitosa sombra doze jovens e viçosas astrápeas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.