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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Mas positivamente quatro deles tinham ido passear à cidade de Roma.

O reitor fingiu que se deixava enganar. Dobrou de vigilância. Cercou de espiões os gazeadores, e enfim, ao cabo de dois dias, achou-se na escada da torre a saída misteriosa por onde os rapazes desciam do forro e onde foram apanhados em flagrante delito.

Nesta história, o que há de mais curioso é que alguns dos alunos internos possuíam um estudo completo e muito minucioso da topografia do país do forro, e a mais esmerada planta da sua cidade de Roma, que estava toda dividida em ruas, praças e ladeiras, e por onde eles passeavam perfeitamente no meio da escuridão.

Um desses amantes daquela cidade de Roma é hoje um mancebo notável por sua bela inteligência e por sua instrução.

Quando entramos no longo corredor, para o qual se abrem não menos de nove salas, apontei-vos o salão dos prêmios. Não vo-lo descrevi, porém, cumprindo-me por isso fazê-lo agora que estou aqui a despedir-me do externato.

Para aquele salão entra-se por duas portas. Uma que o comunica com um pequeno quarto que o separa do corredor, e outra que o comunica com a sala do retrato.

O salão tem cento e sessenta e nove palmos de cumprimento sobre trinta e três de largura. Lança por um lado oito janelas para a rua da Prainha e seis para o segundo pátio do colégio, e tem no fundo dois quartinhos, o da direita com uma janela para a Rua da Prainha, e o da esquerda com uma janela para a Rua da Imperatriz.

Este vasto salão servia, durante o correr do ano, de dormitório para os alunos internos, e hoje serve de sala de estudo, sendo, como disse, destinado para a solenidade da distribuição dos prêmios e da colação do grau de bacharel no fim dos anos letivos.

Esta solenidade é grave, tocante e animadora, e sempre tem sido honrada com a presença de Suas Majestades Imperiais. Começa pela distribuição dos prêmios, que os alunos recebem da mão augusta do Imperador.

Até o ano de 1854 eram três os prêmios, e havia ainda mais duas menções honrosas, constando aqueles de livros clássicos ricamente encadernados, e recebendo o aluno merecedor do primeiro prêmio uma coroa de louro e café com que o Imperador lhe cingia a fronte.

O regulamento de 1855 reduziu os prêmios aos seguintes:

Primeiro: um livro de encadernação dourada e uma coroa entretecida de louro e café.

Segundo: um livro de igual encadernação.

Terceiro: um livro de encadernação menos rica.

As menções honrosas desapareceram, portanto. Mas, em lugar delas, eram proclamados os nomes dos alunos aprovados com distinção.

O regulamento de 1857 conservou os três prêmios, consistindo todos em livros de encadernação dourada. Acabou com a coroa de louro e café, manteve a disposição pela qual o reitor proclama os nomes dos alunos aprovados com distinção.

As cerimônias da colação do grau de bacharel, que tem lugar imediatamente depois da distribuição dos prêmios, são ainda as mesmas que dantes se observavam, e de que já dei conta, quando tratei da legislação do Imperial Colégio de Pedro II.

Completam esta bela solenidade um discurso lido pelo professor de retórica e os hinos e as harmonias de uma orquestra dirigida pelo professor de música.

Eis aqui o número dos bacharéis que até o ano de 1860 nos tem dado o Imperial Colégio de Pedro II, em 1843, oito; em 1844, cinco; em 1845, onze; em 1846, seis; em 1847, oito; em 1848, dez; em 1849, trinta e dois; em 1850, dezoito; em 1851, vinte e um; em 1852, quatorze; em 1853, vinte e dois; em 1854, quatorze; em 1855, oito; em 1856, onze; em 1857, cinco; em 1858, doze (sendo dez do externato e dois do internato); em 1859, seis do externato; em 1860, dez (sendo seis do externato e quatro do internato). Ao todo, 221 bacharéis.

Nada mais tenho que acrescentar ao que deixo escrito a respeito do externato do Imperial Colégio de Pedro II. Partamos, pois, para o internato.

Os carros nos esperam, meus bons companheiros de passeio.

– Os carros?

– Pois, que dúvida! Da cidade ao Engenho Velho há perto deuma légua de caminho, e não é agradável fazer semelhante viagem a pé.

– Mas então, como se arranjam os professores que devem irao internato de doze a quatorze vezes por mês? O governo paga-lhes as despesas da viagem?

– É verdade. Mas de um modo muito engraçado. O governocalculou que, fazendo-se tal viagem em ônibus ou nos carros da Tijuca, gastaria cada professor 1$ na ida e volta. Como, porém, é muito liberal, concedeu 2$ de ajuda de custo para cada viagem de ida e volta aos professores.

– Ah! o dobro! Ainda bem.

– Sim, o dobro. Mas o governo esqueceu que não há ônibusnem carros da Tijuca a todas as horas, e que, si os professores os têm para a ida, ficam sem eles para a volta.

– E, portanto...

– E, portanto, gasta cada um professor de 5$ a 7$ em cada viagem, e assim lá se vai em tílburi ou em carro, além da ajuda de custo, quase toda a gratificação mensal que percebem no internato!

(continua...)

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