Por Inglês de Sousa (1891)
Um paquete da Companhia subia a correnteza em direção a Serpa, com grande barulho de rodas, e o vapor formava um penacho de fumo negro que maculava o esplêndido céu azul dum meio-dia de dezembro. Comparado ao ubá, o barco a vapor parecia um gigante enorme que devorava o espaço e agitava o rio, trêmulo de orgulho; e o contraste formado pelas duas embarcações que por acaso se cruzavam em frente à embocadura do rio Ramos, exprimia a diferença entre o passado recente do vigário de Silves que a natureza dominara e possuíra, e o futuro que se lhe antolhava no desdobramento da sua carreira de padre inteligente e forte. Aquele vapor em breve voltaria de Manaus, e receberia em Silves a notícia do regresso do missionário da Mundurucânia, para a levar, embelezada pela fama e pela ardente imaginação do povo amazonense, à sofreguidão novidadeira da imprensa do Pará e da corte, onde o nome do jovem sacerdote despertaria a atenção pública. As recompensas não tardariam. Antes de tudo, D. Antônio, o bispo justiceiro, apreciador do mérito dos seus padres, lhe obteria facilmente uma prebenda inteira no cabide da Sé de Belém, onde a sua voz de barítono brilhante, ecoando nas abóbadas severas do majestoso templo, despertaria emoções fortes e provocaria expansões de sentimento religioso nas solenidades aparatosas do culto católico. O imperador não podia perder de vista o missionário que sacrificara vida, cômodos e saúde ao serviço da propaganda católica. A sorte de padre Antônio de Morais seria mais brilhante do que lha podia fazer a benevolência do bispo justiceiro. Nas auras sopradas do mar lhe vinham os perfumes acres da cidade que entrevira uma vez ao cair da tarde, e que lhe deixara uma impressão confusa de luzes, de sons e de objetos estranhos, entre os quais se destacavam as mulatas de camisa de rendas impregnada de trevo e pipirioca, perfumes fortes que lhe excitavam o temperamento sensual, dando-lhe o antegosto duma infinidade de prazeres. Ao mesmo tempo na toalha larga, clara e movediça do rio, a perder-se intérmina no horizonte, parecia refletir-se a imagem dum esplêndido futuro, em que ofuscavam a fantasia as cintilações diamantinas da mitra episcopal numa diocese do sul...
Praia do Embaré, abril de 1888.
FIM
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.