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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Mas a pequena ajoelhou-se, sem largar as pernas do calouro, de uma de cujas mãos já se tinha apoderado e cobria de beijos

— Então, papai! papaizinho bonito! uma esmolinha, sim?...dizia ela, voltando para o moço seus belos olhos de crianças, rindo com uns dentes muito brancos que se lhe destacavam vivamente da cor morena do rosto.

— Coitadinha! lamentou Amâncio, fazendo-lhe uma festa no queixo e procurando dinheiro na algibeira das calças..

Puxou um maço grosso de cédulas.

— Não sejas tolo! gritou-lhe o companheiro. – Isto é especulação de algum vadio! Vestem por aí essas bichinhas de luto e mandam-nas perseguir a humanidade! É uma esperteza, não sejas tolo!

A pequena lançou ao Paiva um gesto de raiva e sorriu para Amâncio, suplicando.

— Em todo o caso faz dó, coitada! murmurou este, dando-lhe uma cédula de dois mil-réis.

A italianinha agarrou-se ao dinheiro e olhou surpresa para o calouro. Depois beijou-lhe novamente as mãos, e fugiu, atirando-lhe beijos.

— Coitada! repetiu ele.

— Ainda está muito peludo! resmungou o Paiva. — Olha que isto por cá não é o Maranhão!

E pôs-se logo a falar nas especulações do Rio de Janeiro. Contou fatos horrorosos de cinismo e gatunagem. “Amâncio que se acautelasse: no caminho em que ia, lhe haviam de arrancar até os olhos. — Ali, a ciência de cada um consistia em fazer com que o dinheiro passasse das algibeiras dos outros para as próprias algibeiras”. Estava indignado! “Não podia, a sangue — frio, ver assim se atirar à rua – dois mil-réis! Ah! se o outro soubesse quanto o dinheiro custava a ganhar, não teria as mãos tão rotas!”

E mostrava-se extremamente empenhado nos interesses do colega: dava-lhe conselhos; havia de abrir-lhe os olhos, indicar-lhe o verdadeiro caminho a segui.“ Não! Que ele não era desses, que só querem desfrutar!... Quando simpatizava com um rapaz, sabia ser amigo!

Amâncio o veria no futuro!...

— Olha! segredou-lhe ,passando-lhe um braço nas costas, — Hás de encontrar por aí muito artista! Acautela-te, filho!acautela-te, que os cabras sabem levar água ao seu moinho! Digo-te isto, porque te estimo, porque sou teu amigo, percebes?

Amâncio percebia e jurava ser muito grato àquela dedicação. Tiveram .

porém, de interromper o diálogo :dois outros estudantes acabavam de parar defronte deles.

Eram amigos do Paiva. Houve logo novas exclamações e cumprimentos rasgados.

— Meus senhores, exclamou aquele, apresentando Amâncio. O nosso colega, Amâncio de Vasconcelos, estudante de medicina. Escuso dizer que é muito talentoso e um caráter excelente.

Os dois apertaram a mão de Amâncio com solenidade, e afiançaram que tinham imenso gosto em conhecê-lo.

— João Coqueiro e Salustiano Simões!nomeou o Paiva, indicando os dois.— São ambos da Politécnica. E acrescentou em voz baixa, ao ouvido de Amâncio, mas de modo que fosse ouvido por todos: — Muito distintos!...

O Coqueiro observava em silêncio o novo colega ;enquanto o Paiva e o Salustiano reatavam um velho colóquio, interrompido à última vez que estiveram juntos; saiu do seu recolhimento para indagar de que província era Amâncio, como ia-se dando nos estudos e onde estava hospedado. Entretanto, o Simões afrouxava lentamente na conversa com o outro e caía aos poucos na sua habitual concentração; já respondia apenas por monossílabos e só despregava o cigarro dos dentes para bocejar. Afinal, sem conter a impaciência, quis dissolver o grupo; mas Amâncio tolheu-lhe a idéia perguntando-lhe e mais ao Coqueiro se já tinham almoçado e, visto que não, pediu-lhes que lhe fizessem companhia.

Aceitaram, depois de alguma resistência por parte do último; e os quatro rapazes seguiram imediatamente caminho do hotel, a rir e dar de língua, como se fossem todos amigos de muito tempo.

Paiva Rocha pediu um gabinete particular e aí se instalou com os outros.

Amâncio estava maravilhado. O aspecto daquelas salas afestoadas, cheias de espelhos, de cortinas e douraduras, no gênero pretensioso dos hotéis, ar parisiense dos criados, vestidos de preto e avental branco; a cor estridente do gabinete; o perfume das flores que guarneciam jarras de proporções luxuosas; o alvoroço palavroso e alegre dos que faziam a sobremesa; o crepitar do riso das mulheres, cujos penteadores branquejavam sobre o escuro dos tapetes; a reverberação dos cristais; a expectativa de um bom almoço, que seria devorado com apetite, e finalmente a circunstância de que Amâncio, havia muito não gozava uma pândega; tudo isso lhe refrescava o humor e o fazia feliz naquele momento

— Garçon! Gritou o Paiva, entrando no gabinete com um ar sem – cerimônia— La carte!

O criado disparou.

— Tu falas francês?...inquiriu Amâncio, já com admiração na voz.

— Ora! respondeu o Paiva, levantando os ombros. Aqui na Corte será difícil encontrar alguém que não fale francês!...

— Pois eu ainda não sei...disse aquele tristemente..

— Questão de prática! observou o outro.

Coqueiro, que acabava nesse momento de entrar no gabinete, conversando com Simões, propôs que se despissem os paletós.

Principiaram a comer.

(continua...)

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