Por Visconde de Taunay (1871)
Foi, pelo menos, para nós, um prazer vermos o efeito produzido, a surpresa, o alarma, a confusão. Correram uns ap6s os animais que a detonação dispersara; cavalgaram outros, precipitadamente; e sem mais detença dispararam pelo campo, a todo o galope. Passados poucos minutos desaparecera o destacamento inteiro. Lançou-se-lhe segundo projetil, e logo em seguida terceiro, que alcançou mais de meia légua e deu a conhecer ao inimigo a força de nossa artilharia. Toda esta tropa fugidia só haveria de reaparecer diante da fazenda da Machorra, na fronteira.
Chegados esta tarde, à margem de um ribeirão, que os espanhóis chamam Sombrero, fomos acampar no triângulo que ele ali forma, confluindo com o Apa. Admiramos este belo rio, fronteira dos dois países e cujo aspecto, com sua mata cerrada, tanto nos impressionara quando de longe o avistáramos. Grande futuro lhe está reservado após a guerra.
Desce o Apa por três galhos, logo confluentes, da serra dos Dourados, um pouco abaixo da colônia militar deste nome, a doze léguas, este-sudeste da de Miranda. Corre a principio para Oeste, 10° N. até o forte de Bela Vista, que se acha no paralelo 22, e dai, descambando para Oeste 10° S., vai com um curso levemente sinuoso banhar Santa Margarida, Rinconada e outros pontos fortificados até o Paraguai, em cujo leito se despeja.
Ao chegar pediu o Coronel que lhe dessem água do Apa, e, ou porque lhe viessem á mente vagas reminiscências históricas, a propósito de caudais célebres, ou porque, após tanto abalo de espírito, experimentasse como que uma agitação febril, disse sorrindo: "Notemos a que hora provamos a água deste rio". Puxou o relógio, bebeu e acrescentou a gracejar: "Desejo que este incidente seja consignado na história desta expedição, se algum dia a escreverem". Pareceu empenhado que se lhe fizesse uma promessa em tal sentido. Foi o autor desta narrativa quem, em nome de todos, a tanto se comprometeu, e hoje o cumpre com religiosa exação porque a morte, de que estava o nosso chefe tão próximo, sabe, pela própria natureza enigmática, tudo enobrecer, tudo absolver e consagrar.
É neste ponto o Apa correntoso; mas as grandes lajes que lhe calçam o leito como que convidam a entrar em suas belas águas. Foi o que fizeram muitos soldados; passaram vários para a outra margem a dizer que iam conquistar o Paraguai.
À noite chegaram dois oficiais que à hora do perigo vinham procurar-nos para conosco dele compartirem. A marchas forçadas acudiam de Camapuã. Adiantandose à escolta haviam atravessado, não sem correr o risco de algum acidente, as nossas linhas de vanguarda. Só no dia seguinte apareceram os seus soldados ao acampamento, com um viajante por nome Joaquim Augusto, homem corajoso, mas que ao nosso contato só incitava o interesse pessoal.
No dia imediato, às nove da manhã, pôs-se a coluna em movimento e, atravessando o Sombrero, avançou sobre a margem direita do Apa, tendo á vanguarda o batalhão de voluntários. Muito tempo nos custou vencer uma légua, apenas. Sucedia a cada momento algum acidente às carretas das munições. Delas não nos podíamos afastar, próximos como nos achávamos do inimigo. Atingíramos quase, segundo a opinião dos refugiados, a primeira guarda paraguaia, a saber, o forte e fazenda da Machorra, situada em território brasileiro, a uma légua e quarto para cá do forte de Bela Vista, que está construído na margem paraguaia.
Esperávamos, a cada passo, encontrar resistência. No entanto marchava sempre o nosso batalhão da vanguarda sem perceber ou sem medir a distância que as paradas continuas dos demais corpos punham entre ele e as outras unidades. Em vão soavam os clarins; já se afastara demais para que os pudesse ouvir. Deixalo assim isolado não era prudente; tornava-se indispensável mandar um próprio chama-lo. Ofereceu-se o tenente-coronel Juvêncio e partiu logo com seus dois ajudantes-de-campo e Gabriel Francisco, o genro do guia, que conosco quis ir. Felizmente, tínhamos bons cavalos, dos que haviam resistido à epizootia; safaramse de perigoso atoleiro, que pela ânsia de chegar não quiséramos contornar.
Perdemos logo de vista o corpo de exército, mas não percebíamos, ainda, nossa tropa já empenhada em combate, ao que supúnhamos, pelas descargas e disparos isolados dos atiradores. Víamos perfeitamente, por vezes, tremular a bandeira nacional, a que depois encobriam elevadas moitas. Parecia-nos, aliás, que não avançava. Em poucos instantes a rapidez da carreira dela nos aproximou e, como eletrizados pela sua vizinhança, atiramos os cavalos ás águas do volumoso ribeirão, que nos barrava o passo, o José Carlos, e afinal nos achamos reunidos aos nossos que, em lugar fechado, combatiam á entrada da Machorra.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.