Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Entretanto, a originalidade de um magistrado veio dar causa a que o príncipe regente soubesse o que se estava praticando em seu nome e em mal da população.
Era então juiz de fora e interinamente aposentador o célebre desembargador Agostinho Petra de Bittencourt.
Era uma homem verdadeiramente original, mas um magistrado justo e severo.
Andava ele já muito aborrecido com os arranjos de aposentadorias e cansado dos abusos em que, por obediência, se via coagido a tomar parte.
Um dia, estava o desembargador Petra a meditar nos sofrimentos do povo, quando lhe entrou pela sala um fidalgo que o visitava pela quarta vez.
Na primeira visita, esse fidalgo tinha pedido a aposentadoria em uma boa casa que designara. Na segunda, pedira nova aposentadoria em outra casa melhor. Na terceira, tinha vindo exigir mobília.
E não contente ainda com tudo isso, apresentava-se pela quarta vez, declarando que lhe convinha muito um excelente criado, ou talvez escravo, que servia a um homem que designou.
O desembargador Petra, sem dar a mais simples resposta, fez chamar sua senhora à sala, e apenas a viu chegar, disse-lhe:
– Apronte-se, Sra D. Joaquina, estamos em vésperas de separar-nos. Este nobre fidalgo já me pediu casa, depois mais casa, depois mobília, agora criado; amanhã provavelmente há de querer que eu lhe dê mulher, e como não tenho outra senão a senhora, e não há remédio senão servi-lo, apronte-se, Sra D. Joaquina, apronte-se!
O fidalgo saiu furioso, protestando vingar-se, e foi direito ao príncipe regente queixar-se da zombaria de que fora objeto. Mas o desembargador Petra, interrogado pelo príncipe, tais cousas disse e tão claramente manifestou a verdade, que as violências cessaram, e o sistema das aposentadorias foi mais suavemente executado.
Por ocasião da sua elevação ao trono, o Sr. D. João VI reformou ainda este sistema, concedendo aos habitantes da cidade do Rio de Janeiro as aposentadorias passivas.
Faço aqui ponto final a respeito das aposentadorias.
Creio, porém, meus companheiros de passeio, que podemos conversar ainda alguns momentos, visto que não temos pressa nem razão alguma para andar correndo.
Falei-vos do desembargador Petra. Disse-vos que era ele um homem original, e não devo contentar-me com a única anedota que a seu respeito referi.
Aí vai outra.
Naqueles tempos de que nos estamos lembrando neste passeio, somente de calções e meias de seda se apresentavam no paço os homens da corte. O triunfo das calças teve lugar apenas em 1840, com satisfação indizível de todas as pernas finas e de todas as pernas grossas demais.
Os calções e as calças podiam bem servir não só para representar duas épocas distintas, mas ainda dois princípios que se contrariam. Teríamos em tal caso os calções representando a aristocracia, e as calças a democracia.
Se aceitarem a idéia, pode bem ficar determinado que o último e fiel representante da aristocracia no Brasil foi um antigo inspetor de quarteirão da freguesia de São José, homem constante, que até o último dia da sua vida, anos depois de 1840, usou de calções de ganga amarela.
Vamos, porém, à anedota.
Somente de calções e meias de seda ia-se naquele tempo ao paço fazer a corte ao rei, e os magistrados usavam, por mais requinte de tafularia, levar aberta a beca para mostrar os calções e as meias de seda.
Preparava-se o desembargador Petra, um dia, para ir ao paço. Achava-se já de calções, porém ainda em mangas de camisa, e eis que lhe aparece, de súbito, um grande criminoso contra quem havia dado ordem de prisão e que lhe trazia um requerimento a despachar.
O desembargador, em vez de receber o requerimento, abre a boca e brada: “Está preso!”
O criminoso volta as costas, corre pela porta afora. Mas o desembargador Petra, em mangas de camisa e sem chapéu, como estava, deita igualmente a correr pela rua atrás do fugitivo, gritando: “Pega ladrão! Pega ladrão!”
O povo acudiu à voz da justiça. O criminoso foi cercado, preso e recolhido à cadeia. E o desembargador Petra, muito satisfeito do resultado da diligência, voltou para casa, tomou a beca e foi para o paço.
Quero ainda contar-vos uma outra anedota relativa ao mesmo magistrado. Será a última. Antes, porém, de o fazer, desejo, assim a modo de prólogo ou introdução de uma história, oferecer-vos breves considerações.
O mal que se está experimentando sempre nos parece mais grave ou doloroso do que o mal que já se experimentou. Esta nuança do nosso egoísmo faz-nos geralmente muito injusto para com o nosso tempo.
Andamos agora incessantemente maldizendo do patronato e queixando-nos dos repetidos e vergonhosos milagres que ele operava. Causa-nos espanto a cara horrível do patronato de hoje. Ah! Façam idéia da face medonha do patronato daqueles tempos em que o arbítrio era a lei, a vontade de um ministro valia mais do que todos os interesses do país e todas as conveniências públicas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.