Por José de Alencar (1853)
Destroçado o inimigo, tornavam á penitencia e proseguiam tranquillamente na reza começada.
Quando completou um anno, que tinha a escuna deixado o porto de S. Sebastião; á meia noite, Ayres de Lucena aproou para terra, e soprando fresca a briza de leste, ao romper d'alva começou a desenhar-se no horizonte a costa do Rio de Janeiro.
Por tarde, aescuna corria ao longo da praia da Copacabana, e com as primeiras sombras da noite largava o ferro em uma abra deserta que ficava proxima da Praia-Vermelha.
Saltou Ayres em terra, deixando o commando a Bruno, com recommendação de entrar barra dentro ao romper do dia; e a pé seguiu para a cidade pelo caminho da praia, pois ainda senão tinha aberto na mata virgem da Carioca a picada que mais tarde devia ser a rua aristocratica do Cattete.
Ia sobresaltado o corsario com o que podia ter acontecido durante o anno de sua ausencia.
Sabia elle o que o esperava ao chegar ? Tornaria a ver Maria da Gloria, ou lhe teria sido arrebatada, apegar da penitencia que fizera?
Ás vezes parecia-lhe que ia encontrar a mesma scena da vez passada, e achar a moça de novo prostrada no leito da dôr, mas d'esta para não mais erguer-se; porque a Senhora da Gloria para o punir não ouviria mais a sua prece.
Eram oito horas quando Ayres de Lucena chegou á casa de Duarte de Moraes.
A luz interior filtrava pelas frestas das rotulas; e ouvia-se rumor de vozes, que falavam dentro. Era ali a casa de jantar, e Ayres espiando viu á meza toda a família reunida, Duarte de Moraes, Ursula e Maria da Gloria, os quaes estavam no fim da cei.
Passado o sossobro de rever a menina, Ayres foi á porta e bateu.
Duarte e a mulher se entreolharam surpresos d' aquelle bater fóra de horas; Maria da Gloria porém levou a mão ao seio, e disse com um modo brando e sereno:
— É elle, o senhor Ayres, que está de volta!
— Que lembrança de menina! exclamou Ursula.
— Não queres acabar de crer, filha, que meu pobre Ayres, ha muito que está com Deus! observou Duarte melancholico.
— Abra o pai! respondeu Maria da Gloria mansamente.
Deu elle volta á chave, e Ayres de Lucena apertou nos braços ao amigo attonito de o ver depois de por tanto tempo o haver por morto.
Grande foi a alegria de Duarte de Moraes e a festa de Ursula com a volta de Ayres.
Maria da Gloria porém, si alguma cousa sentiu, não deu a perceber; falou com o cavalheiro sem mestra de surpreza, nem de contentamento, como si elle a tivesse deixado na vespera.
Esté a colhimento lndifferente confrangeu o coração de Ayres, que ainda mais se affligia notando a pallidez da moça, a qual parecia estar-se definhando como a rosa, a quem a larva devora o seio.
XV
O NOIVO
Em um mez, que tanto fazia desde a volta de Ayres, não lhe dissera Maria da Gloria uma palavra siquer ácerca da longa ausencia.
— Tão alheio lhe sou, que nem se apercebeu do anno que passei longe d'ella.
De seu lado tambem não tocava o cavalheiro n'esse incidente de sua vida, que desejava esquecer. Quando Duarte de Moraes insistia com elle para saber a razão porque se partira tão inesperadamente, e por tanto tempo sem dar avizo aos amigos, o corsario esquivava-se á explicação e apenas respondia:
— Tive noticia do inimigo e fui-me sem detença. Deus Nosso Senhor ainda permittiu que tornasse ao cabo de um anno, e eu lhe rendo graças.
Convenceram-se quantos o ouviam falar assim, que havia um mysterio na ausencia do cavalheiro; e o povo miudo cada vez mais persistia na crença de que a escuna estivera encantada todo aquelle tempo.
O primeiro cuidado de Ayres, logo depois de sua chegada, foi ir com toda a sua maruja levar ao mosteiro de S. Bento o preço de tudo quanto haviam capturado, para ser applicado á festa e ornato da capella de Nossa Senhora da Gloria.
Acabado assim de cumprir o seu voto e a penitencia a que se tinha sujeitado, não pensou Ayres sinão em viver como d'antes para Maria da Gloria, bebendo a graça de seu formoso semblante.
Mas não tornaram nunca mais os dias abençoados do intimo contentamento em que tinham vivido outrora. Maria da Gloria mostrava a mesma indifferença pelo que passava em torno d'ella; pa recia uma creatura já despedida d'este valle de lagrimas, e absorta na visão do outro mundo.
Dizia Ursula que essa abstracção de Maria da Gloria lhe ficára da doença, e só havia de passar em casando; pois não ha para curar as meninas solteiras como os banhos da igreja.
Notara porém Ayres que especialmente com elle tornava-se a menina mais arredia e concentrada; e vendo a differença de seu modo para com Antonio de Caminha, de todo convenceu-se que a menina gostava do primo, e estava-se finando pelo receio de que elle Ayres puzesse obstaculo a seu mutuo affecto.
Dias depois que essa idea lhe entrou no espirito, achando-se em casa de Duarte de Moraes, succedeu que Maria da Gloria de repente debulhou-se em pranto, e eram tantas as lagrimas que lhe corriam pelas faces como fios de aljofares.
Ursula que a viu n'esse estado, exclamou:
— Que tens tu, menina, para chorar assim ?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.