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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

A infatigável curiosidade feminina procurava ainda o objeto caído no colo de Marta, quando ouviu-se novo estrépido, e alguma cousa bateu na cabeça de uma devota. Mas em vez de ficar-se como a outra, descansada e quieta, começou a dar pulos tontos. 

Foi uma debandada. Dispersou-se o mulherio como por encanto, no meio de guinchos e faniquitos. Esta desgrenhava o cabelo cuidando que o trasgo, pois era um com certeza, lhe ficara preso ao toucado. Aquela sacudia as saias, examinando-as por dentro e por fora. Essa outra embiocava-se, para examinar no seio, se por acaso não se enamorara a larva dos dois jenipapos. 

Ao grande espalhafato acudiu o tabelião, apunhando a enorme boceta de tabaco, à guisa de pelouro, na carência de outra arma ofensiva. Os outros velhuscos da roda, qual mais destemido, o acompanhavam, este com um pedaço de tijolo, aquele com um tamanco velho. 

Dos primeiros a acudir, se não o primeiro, foi o Ivo, e em tão boa hora que amparou sem querer o corpinho trêmulo de Marta, quando ela ia cair; mas apenas a apertou nos seus braços, que a desmaiada logo ficou de todo restabelecida, e fugiu-lhe como uma sombra. 

A causa de toda a balbúrdia fora o grilo, que tão a ponto lançara o Ivo na roda das mulheres, e quando contava-se a história de uma borboleta preta, que chupava sangue à gente, e não era outra senão uma velha bruxa. 

Como previra Ivo, deu o susto em resultado apressar a ceia, visto que se tinham desmanchado as rodas, e não havia que fazer àquela hora para entreter o resto do tempo. 

Depois da ceia, e antes de recolher-se com a família, escapuliu Marta de perto da mãe, e foi ao quintal colher uma perpétua para deixá-la sobre o trumó, aos pés do Menino Jesus. 

Nesse entretanto o tabelião, sempre grave, compassado e sacramental, como um instrumento em devida forma, chamava de parte a dona de casa. 

— Sr.ª Romana, minha respeitável sogra, poderá dizer-me quem é este rapaz que vi hoje aqui pela primeira vez? 

— É o sobrinho da Rosalina. 

— A do alferes? perguntou o tabelião vincando a testa. 

— Fale mais baixo, Sr. Sebastião, que ela pode ouvir! 

— Vistos os autos, a referida está aqui? 

— Que tem isso agora? Por que andaram a fazer enredos da pobre? E não passa da Pôncia, aquela linguazinha de... 

— Pois, Sr.ª Romana, minha respeitável sogra, urge que ponha cobro a isso porquanto, se a supradita e mais o bonifrate do filho, que a espertalhona alapardou em sobrinho, se meterem aqui, nem sua filha e minha mulher, nem a sua neta, filha minha e da sua também supradita filha, tornarão a pôr os pés em casa onde se agasalha gente descomedida, que... 

— Ora, Sr. Sebastião, guarde seu palavreado lá para a rabulice. A Rosalina há de vir como o filho e o senhor também com a Miquelina e a Marta! 

— A senhora teima? perguntou o tabelião em tom sacramental. 

— Teima é a sua de engrimar-se com a coitada da mulher, que não lhe fez mal nenhum. 

— Escandaliza os bons costumes; e bem vê que sendo eu um oficial do público, judicial e notas, não posso tolerar... 

— E que remédio tem o senhor? 

— Não me afronte, Sr.ª Romana, senão... senão... 

Fez o Sebastião uma reticência tabelioa, prenhe de solenes ameaças.  

A velha, porém, fincara as mãos nos quadris; e surdindo por baixo do nariz do tabelião, perguntou-lhe em ar de desafio: 

— Senão, o quê? 

— Senão eu me recolho ao silêncio! respondeu o tabelião com dignidade.

— É o senhor que pode fazer. 

 

XI 

 

NO FIM DE CONTAS EI-LO O RATO DENTRO DO QUEIJO 

 

Não eram passados oito dias depois da novena, quando pela volta das sete horas da manhã, apareceu a Sr.ª Romana Mência em casa em casa do genro. 

Acabava precisamente o Sebastião Ferreira a sua refeição matinal, e esgravatava metodicamente a dentuça com uma pena de galo, esperando que pingassem as sete para encaminhar-se ao cartório. 

D. Miquelina e a filha, sentadas ao lado direito da mesa, não tinham concluído a reza, em que o tabelião, como de costume, se despachava mais depressa que elas. 

— Deus esteja nesta casa! disse a velha entrando. 

— E os anjos a acompanhem, senhora mãe! 

— Amém! disse Marta. 

— Muito bem aparecida, Sr.ª Romana! 

— Onde a gente é querida, sempre há de ser bem aparecida. 

Não deixou o tabelião de reparar na visita da sogra àquelas horas canônicas do trabalho; mas foi quando notou o desempeno da velha, com a mantilha passada por baixo do braço direito, e a venta arregaçada, que o Sebastião Freire agourou mal daquela vinda tão fora de vila e termo. 

Avisando como homem prudente em evitar a tormenta, fungou os restos da pitada, que estivera a rolar em bolota nos dedos, e foi-se esgueirando para ganhar o cartório. Mas atalhou-lhe o passo a matrona, com ar decidido de quem traz negócio de monta. 

— Temos que falar; senhor meu genro. 

— São horas de abrir o cartório; bem sabe, primeiro a obrigação, depois a devoção. 

— Pode abrir seu cartório. Quem lhe Impede? Se é mesmo por ele que venho.

— Pelo meu cartório, Sr.ª Romana Mência!... 

(continua...)

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