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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

EDUARDO - Não podia fazer, porque não tratamos de semelhante coisa.

D. MARIA - Mas, meu filho, não te entendo. Tu chamas para o interior da família um homem que faz a corte à tua irmã e nem sequer procuras saber as suas intenções!

EDUARDO - As intenções de um homem, ainda o mais honrado, minha mãe, pertencem ao futuro, que faz delas uma realidade ou uma mentira. Para que obrigar um moço honesto a mentir e faltar à sua palavra?...

D. MARIA - Assim, tu julgas que é inútil pedir ou receber uma promessa?

EDUARDO - Completamente inútil, quando a promessa não constitui uma verdadeira obrigação social e um direito legítimo.

D. MARIA - Não te percebo!

EDUARDO - É preciso conhecer o coração humano, minha mãe, para saber quanto as pequeninas circunstâncias influem sobre os grandes sentimentos. O amor, sobretudo, recebe a impressão de qualquer acidente, ainda o mais imperceptível. O coração que ama de longe, que concentra o seu amor por não poder exprimi-lo, que vive separado pela distância, irrita-se com os obstáculos, e procura vencê-los para aproximar-se. Nessa luta da paixão cega todos os meios são bons: o afeto puro muitas vezes degenera em desejo insensato e recorre a esses ardis de que um homem calmo se envergonharia; corrompe os nossos escravos, introduz a imoralidade no seio das famílias, devassa o interior da nossa casa, que deve ser sagrada como um templo, porque realmente é o templo da felicidade doméstica.

D. MARIA - Nisto tens razão, meu filho! É essa a causa de tantas desgraças que se dão na nossa sociedade e com pessoas bem respeitáveis; mas qual o meio de evitá-las?

EDUARDO - O meio?... É simples; é aquele que acabo de empregar e que V.Mce. estranhou. Tire ao amor os obstáculos que o irritam, a distância que o fascina, a contrariedade que o cega, e ele se tornará calmo e puro como a essência de que dimana. Não há necessidade de recorrer a meios ocultos, quando se pode ver e falar livremente; no meio de uma sala, no seio da intimidade, troca-se uma palavra de afeto, um sorriso, uma doce confidência; mas, acredite-me, minha mãe, não se fazem as promessas e concessões perigosas que só arranca o sentimento da impossibilidade.

D. MARIA - Mas supõe que esse homem, que parece ter na sociedade uma posição honesta, não é digno de tua irmã, e que, portanto, com este meio, proteges uma união desigual?

EDUARDO - Não tenho esse receio. Ninguém conhece melhor o homem que a ama, do que a própria mulher amada; mas para isso é preciso que o veja de perto, sem o falso brilho, sem as cores enganadoras que a imaginação empresta aos objetos desconhecidos e misteriosos. Numa carta apaixonada, numa entrevista alta noite, um desses nossos elegantes do Rio de Janeiro pode parecer-se com um herói de romance aos olhos de uma menina inexperiente; numa sala, conversando, são, quando muito, moços espirituosos ou frívolos. Não há heróis de casaca e luneta, minha mãe; nem cenas de drama sobre o eterno tema do calor que está fazendo. D. MARIA (rindo) - Pensa bem, Eduardo!

EDUARDO - Continue a educar o espírito da sua filha como tem feito até agora; e fique certa que, se Alfredo tivesse uma alma pequena e um mau caráter, Carlotinha descobriria primeiro, com a segunda vista do amor, do que a senhora com toda a sua solicitude e eu com toda a minha experiência.

D. MARIA - Desculpa, Eduardo. Sou mulher, sou mãe, sei adorar meus filhos, viver para eles, mas não conheço o mundo como tu. Assustei-me vendo que um perigo ameaçava tua irmã; tuas palavras, porém, tranqüilizaram-me completamente.

CENA IX

Os mesmos, CARLOTINHA, AZEVEDO

AZEVEDO - Pode-se fumar nesta sala?

EDUARDO - Por que não? Vou mandar-lhe dar charutos.

CARLOTINHA (baixo) - Por que nos deixou, mano? Henriqueta está tão triste!

EDUARDO - Tratava da tua felicidade.

D. MARIA - Acha a nossa casa muito insípida, não é verdade, Sr. Azevedo?

AZEVEDO - Ao contrário, minha senhora, muito agradável; aqui podo-se estar perfeitamente à son aise.

EDUARDO (a PEDRO, na porta) - Traz charutos.

CENA X

AZEVEDO, EDUARDO

AZEVEDO - Realmente, Henriqueta perde vista em uma sala; não tem aquele espírito que brilha, aquela graça que seduz, aquela altivez misturada de uma certa nonchalance, que distingue a mulher elegante.

EDUARDO (rindo-se) - Como! Já estás arrependido?

AZEVEDO - Não; não digo isto! É apenas uma comparação que acabo de fazer. Tua irmã Carlotinha é o contrário.

EDUARDO - Sabes a razão disto?

AZEVEDO - Não...

EDUARDO - É porque já vês Henriqueta com olhos de marido!

AZEVEDO - Talvez...

CENA XI

AZEVEDO, PEDRO

PEDRO - Charutos, Sr. Azevedo; havanas de primeira qualidade, da casa de Wallerstein!

AZEVEDO - Pelo que vejo já os experimentaste!

PEDRO - Pedro não fuma, não senhor; isto é bom para moço rico, que passeia de tarde, vendo as moças.

AZEVEDO - Então é preciso fumar para ver as moças?

PEDRO - Oh! Moça não gosta de rapaz que toma rapé, não, como esse velho Sr. Vasconcelos, que anda sempre pingando. Velho porco mesmo!...

AZEVEDO - Mas tem uma filha bonita!

PEDRO - Sinhá Henriqueta! Noiva de senhor!...

AZEVEDO - Tu já sabes?...

(continua...)

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