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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

— É preciso mudar o plano de ataque! Comecei à maneira de César, atacando com impetuosidade. Vou contemporizar conforme a escola de Fábio; simulo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe a retirada, e ele rende-se. Arraso o Humaitá daquele vestido que defende o meu pezinho adorado como uma casamata. A indiferença é a serpente tentadora da mulher.

Em conseqüência destas reflexões, Horácio deixou-se ficar onde estava, e não seguiu a moça. Quando supôs que ela já ia distante, foi procurar algures, em um bilhar, o preservativo contra a tentação de cortejá-la, ou antes o seu pezinho.

— Ela há de reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança.

Entretanto Laura, descendo a Rua do Ouvidor, encontrara pouco adiante, na casa do Masset, Amélia em companhia da mãe.

As duas amigas não podendo vir juntas, tinham ajustado seu encontro para aquele ponto. O primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerário pelas diferentes lojas e casas de modas.

Ao cabo de duas ou três horas, tomaram o carro que estava parado próximo à Rua dos Ouvires e partiram na direção do Catete. A poucos passos dali, Amélia perguntou ao lacaio sentado na almofada:

— Trouxe?

— Sim, senhora; está aí dentro.

—  Bem!

— O carro aproximava-se do Largo da Lapa, quando Amélia disse:

— Podíamos ir agora ao Passeio Público?

— Tão tarde! replicou Laura.

— Deixa-te disso! observou a mãe da moça.

— Por quê, mamãe? Há tanto tempo que lá não vamos.

— Não há nada de novo.

— Ora, eu queria ver a garça. Ainda não a vi.

— Viste, sim!

— Mas não reparei numa coisa!...

— Em quê?

— Uma coisa. Depois direi.

Tanto insistiu que a mãe cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro que chegasse até o portão do Passeio Público. As senhoras desapareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direção ao lago. Amélia queria ver o andar da garça, que Horácio tinha comparado ao seu.

Nessa ocasião passava o tílburi do nosso leão, que vinha do lado da Ajuda. Um atropelo, produzido por uma gôndola mal conduzida, ia atirando o tílburi sobre o carro parado no portão do Passeio Público. Este incidente chamou a atenção do moço para o cocheiro, que derreado sobre a almofada não se movera.

A memória apresenta às vezes um fenômeno curioso; conserva por muito tempo oculta e sopitada uma impressão de que não temos a menor consciência. De repente, porém, uma circunstância qualquer evoca essa reminiscência apagada; e ela ressurge com vigor e fidelidade.

Foi o que sucedeu a Horácio. Minutos antes, por maiores esforços que fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina perdida, não o conseguiria decerto. Entretanto bastou-lhe ver a roupa do cocheiro, para acudir-lhe imediatamente ao espírito a imagem desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na Rua da Quitanda; não havia dúvida.

O leão mandou parar o tílburi e entrou no Passeio Público; depois de percorrer inutilmente várias alamedas, afinal descobriu entre as árvores, além do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquela direção.

O terreno estava úmido da chuva da manhã; e por isso o pé dos passeadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das alamedas. Notando esta circunstância, Horácio procurou o vestígio de alguma botina irmã da que achara, e guardava como uma relíquia; ficou ébrio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo que deixara no chão o mimoso pezinho.

Se não fosse o anelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona incógnita do tesouro, Horácio se houvera ajoelhado a beijar o rasto da fada de seus amores; mas as senhoras caminhavam rapidamente para o portão.

Por mais que se apressasse o leão, chegando à saída, apenas viu o carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer Amélia, que lhe sorriu e inclinouse para acompanhá-lo com os olhos.

— E ela! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. Há pouco, vendo-a passar pela Rua do Ouvidor, tive um pressentimento! Aquele andar cheio de graça não podia enganar.

No dia. seguinte o leão fez-se apresentar ao pai de Amélia, abastado consignatário de café, estabelecido à Rua Direita. O encontro deu-se na Praça do Comércio. Horácio aí foi a pretexto de comprar apólices; e um amigo, corretor de fundos, prestou-lhe aquele serviço. O negociante ofereceu a casa ao moço que aceitou a fineza com efusão de contentamento.

O Sr. Pereira Sales habitava nas Laranjeiras uma bela chácara. Amélia era filha única, e seu dote, convertido em cem apólices, só esperava o noivo. Quanto à mulher, tinha uma boa pensão instituída no montepio geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza, economizando pouco ou nada de seus lucros anuais.

Quando Horácio teve conhecimento destas particularidades domésticas, sorriu.

— Bem! O meu pezinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com luxo!

(continua...)

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