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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

Vendo à luz baça dos tocheiros assomar um vulto, as beatas fugiram assombradas. Fiquei só ali em frente do ataúde.

Nesse momento Úrsula me pertencia; ninguém a disputava à minha adoração.

Como era bela no eterno sono em que repousava do mundo e de suas misérias! Tinha nos lábios aquele mesmo sorriso que derramava sobre mim, agora tocado de um reflexo lívido. Estava branca e imaculada como os anjos; eram níveas como as faces as rosas que lhe cingiam os bastos cabelos crespos.

Quis beijá-la e recuei!... Ainda morta, e brevemente pasto dos vermes, não ousei profanar o despojo santo da formosa criatura.

Nesse momento ouço rumor do lado da sacristia. É a gente curiosa que vem trazida pelas beatas, para espancar o espetro. Querem roubar-ma outra vez!...

Mas não o conseguirão! Hei de disputá-la até aos vermes e ao pó da terra.

Cingindo ao peito o corpo de Úrsula, arrojei-me fora da igreja, e vim depositá-lo aqui, onde ninguém ousará perseguir-me. As portas estão eiscâncaras, dia e noite, batidas pelo vento; guardadas porém uma fera mais terrível que Cérbero, a peste.

Agora sim, Úrsula, tu me pertences para sempre, como eu a ti.

Que se passa?

Ouço a plebe a rugir lá fora; uma chama súbita enrosca-se pela treva como o dragão.

Compreendo: deitaram fogo à casa para exterminar o maldito!

Graças, meu Deus! Este fogo me redimirá da maldição que pesa sobre mim, e purificará meu ser. Assim ao menos poderão minhas cinzas se unirem com as de Úrsula!

Bem-vindas, chamas amigas! Aqui estamos; cingi-nos, abraçai-nos, para que em vosso seio fecundo, celebremos as núpcias da eternidade.

9 DE MAIO

Eis-me outra vez no mundo e só... Só, não; que me acompanham ainda e sempre o meu desespero, e a sanha do mundo.

O fogo não me quis; teve asco de mim, como tivera o mar, e o cão danado. Não ousou tocarme; tal é a repulsão que derramo em torno.

Com o incêndio abateu-se uma parede do aposento em que me achava, levantando a extremidade oposta do soalho com tal violência, que me arremessou pela janela em cima de um telhado, donde escorreguei ao chão.

Só pela madrugada pude arrastar-me ao montão de ruínas e deitar-me no brasido onde jaziam as cinzas de Úrsula.

Daqui, desse mesmo lugar que ninguém disputaria a um cão, expulsou-me o ódio da gente.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Assim terminava o canhenho do lázaro. Expulso do Recife, pela plebe irritada com os últimos sucessos, refugiou-se na casa abandonada de Olinda, onde terminou afinal a imensa e cruel agonia de uma existência nunca vivida, mas tão penada.

 

FIM

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