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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Pantaleão – Oh! Não falemos em dinheiro... Vossa Senhoria tem crédito na praça: acabo de redigir este contrato, pelo qual Vossa Senhoria me compra esta casa, e se obriga a dar-me por ela doze contos de réis, pagos no fim de seis meses, e com o direito de desfazer o contrato no fim de um mês; e eu, pela minha parte, no caso de arrendamento, me obrigo a pagar-lhe para reaver o imóvel, dois contos de réis. Serve assim?... (ADRIANO lê o contrato) Este mundéu não vale oito contos... e se ele aceita...

Adriano – Pois vá; assinarei este papel, que finalmente a nada me obriga: mas veja que é a pesar meu. (Assinam ambos dois papéis, cada um guarda o seu)

Pantaleão – Quanto a isto, estamos arranjados; a respeito da rapariga, brevemente falaremos: o meu amigo não se arrependerá destes dois negócios: uma mulher excelente... uma propriedade que não o é menos... ainda jovem e formosa... Vossa Senhoria a fará rebocar... a propriedade é deliciosa... cheia de talentos e de graças: e que nariz, senhor!!! A rapariga então é um portento! É toda feita de pedras de talha... ótimas madeiras... e finalmente... sim, amigo do coração, adeus! Eu sou um mortal imensamente afortunado! Oh! Sim!... Vossa Excelência aperta a mão de um mortal imensamente afortunado... (À parte) Oh! Ifigênia, tu serás milionária e eu entrarei no monopólio com o dinheiro do genro!... (A ADRIANO) adeus, amigo do peito, adeus!

Adriano – Oh! Dinheiro! (Cantam)

Pantaleão (À parte) – Eu também sou como os outros,

CENA IX

Adriano (Só) – Agora sim, entremos em nós... conversemos um pouco com a consciência... estou em um perfeito juízo... estou, não há dúvida! Não me acho bêbado, nem doido! Tenho... ou tive um primo... na Califórnia... Paulo Cláudio Jenipapo... na minha árvore genealógica, nos anais de minha família, eu encontro um tio, que enquanto vivo foi patrão de uma sumaca... chamava-se ele mestre Leonardo Jenipapo... ora, quando se tem tido um tio, não é nenhum impossível, que depois a gente venha a ter não só um, como até cinqüenta primos... todos querem que eu seja o único herdeiro de um primo, que deixou milhões... a imprensa proclama isso por suas mil bocas... não é por conseqüência admissível, que todos se enganem... (Depois de um instante de silêncio) tolo, e muito tolo sou eu em não dançar, em não saltar por esta sala: é verdade! Sou rico! Tenho dinheiro! Sou milionário!... oh!... (Canta e dança)

Enfim, o senhor destino

Ser justo quis uma vez;

De suspirados milhões

Feliz herdeiro me fez.

Sou rico! Sou rico!

Já tenho outro rosto!

Sou rico! Sou rico!

Não caibo de gosto!

Vejam já quantos amigos

Mal me deixam respirar!

“que cambada de marrecos

pega neles p’ra capar.”

Sou rico! Sou rico!

Já tenho outro rosto!

Sou rico! Sou rico!

Não caibo de gosto!

CENA X

Celestina e Adriano

Adriano – Ah! és tu, Celestina?... vem ajudar-me a gozar esta alegria desordenada! Eu sou rico, Celestina, eu sou milionário!...

Celestina – Já o sei.

Adriano – Leste algum jornal?...

Celestina – Não; foi a senhora Beatriz.

Adriano – É o mesmo; ela é a verdadeira gazeta do quarteirão; mas desta vez a senhora Beatriz falou a verdade, o que certamente é um pouco extraordinário. Sim, eis aqui o jornal, o bem-aventurado jornal!... Celestina, tu vais ser feliz.

Celestina – Eu feliz!... pois vê, como sou criança; tua inesperada riqueza quase que me tem causado aflição.

Adriano – Oh! Não sejas tu a primeira que maldigas a minha fortuna: tu vais deixar o teu pequeno quarto para morar num sobrado cheio de espelhos de doze pés de altura!

Celestina – não sou ambiciosa: esta modesta câmara me viu tão feliz com o teu amor, que jamais a poderei deixar sem saudades.

Adriano – Oh! Os espelhos de doze pés de altura nada será ainda: terás móveis de mogno, ricas porcelanas, vasos de Sèvres, fortes-pianos e pianos-fortes; vestidos de seda, chapéus de plumas, xales de toquim, adereços de brilhantes, jóias preciosas, ouro, coralinas, esmeraldas, o diabo, Celestina, terás o diabo a quatro: e quando te virem passear comigo de carruagem, eles... esses sujeitinhos todos que nos torciam ainda ontem o nariz, hão de abaixar os olhos, e dizer: “Aquela moça deve estar bem contente por ter um amante; que com extremo tal a adora!”

Celestina – Um amante!... mas ainda esta manhã, Adriano, tu dizias um marido! Não é a riqueza, é a verdadeira felicidade que eu aspiro, Adriano, estarás tu mudado?...

Adriano – Eu mudado?... oh!... não... não... mas... Celestina, isso é puerilidade: um amante... um marido... veremos... mais tarde... veremos é simplesmente uma mudança de palavra.

Celestina – mas essa palavra, senhor, é tudo para a mulher honesta; reconheço já que a vossa nova posição vos tornou outro: a pobre Celestina não é mais a mulher que se vos faz necessária...

Adriano – Eu não disse isso... todavia, falas de um modo que...

Celestina – Tendes razão, senhor, eu compreendo, eu adivinho tudo! (Canta)

Adriano – Mas, Celestina, que motivo...

Celestina – (Canta e chorando vai-se)

(continua...)

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