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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Depois de longos meses passados no campo, Honorina, a jovem romântica de quem Félix havia dado notícias, tornava para a sua bela corte, e pela primeira vez a sós com Raquel, a camarada de seus jogos da infância, a companheira de suas travessuras de criança, a comadre de suas bonecas, ela esquecia que a noite corria, e conversavam juntas.

Um momento tinham ficado ambas em silêncio, quando Raquel, que até então só tivera de responder à sua amiga, entendeu que cumpria por sua vez interrogar.

— Mas, Honorina, doravante deixarás tu de ser freira?...

— Devo crer que sim, Raquel; pois que é morto meu avô, e meu pai não olha para o mundo como o encarava aquele.

— Pois bem, tu vais ser a bela princesa das nossas festas.

— Pensas isso?...

— Com tão lindos olhos, e tão belo rosto, disse Raquel dando-lhe um beijo, impera-se nas sociedades, e escolhe-se um escravo para marido.

— Mas casar-me-ei eu?...

— Que pergunta! terás medo de não encontrar quem jure que te ama?...

— Quem sabe?... e também, Raquel, chegarei eu a amar?...

— Em conclusão, e ainda que tu e eu fossemos feias, é tudo isso muito indiferente para acharmos quem nos proteste amar e queira casar conosco.

— Mas por quê?...

— Porque somos ricas.

— Oh, Raquel, isso é horrível!...

— E, todavia, nada há neste mundo mais verdadeiro, e como é neste mundo que devemos viver, devemos dar graças a Deus, que nos deu fortuna e riqueza.

— Permita Deus, Raquel, que tu me estejas mentindo; porque eu teria vergonha de viver num mundo como esse.

— Escuta, Honorina, a diversidade dos nossos pensamentos a tal respeito nasce da diferença de educação com que se nos fez crescer. Ambas temos dezesseis anos; mas tu és muito mais nova que eu. Nossos pais amam-nos com amor igual, quiseram ambos dar-nos a maior felicidade possível; ricos, como são, desejariam que nós tivéssemos todas as prendas peculiares do nosso sexo, e, mais ainda, que o nosso espírito fosse afincadamente cultivado, de modo que nós adquirimos o dobro da instrução que devem ter as nossas patrícias com a educação ordinária.

— Raquel, continua.

— Mas, para conseguir esse fim, nós trilhamos caminhos absolutamente opostos; começarei por ti, Honorina. Tu tinhas um avô, que te idolatrava com excesso, homem do século passado, que chegara até ao nosso com todas as velhas idéias firmes e inabaláveis. Ele combateu a vontade de teu pai, opôs-se ao gênero da educação que se te queria dar, e, para que este conseguisse ver-te instruída, foi preciso conceder que toda a instrução te fosse dada debaixo dos olhos de teu avô. Esse bom velho via o mundo cheio de mentiras e traição, de perigos e de enganos; e, tremendo pelo seu querido anjo, temendo que o bafo do vício manchasse a flor do seu coração, ele te escondeu dos homens; tu eras a sua bela violeta... modesta, oculta entre as suas folhas; providente, ele fugia contigo em sua alma, quando sonhava um perigo; escolhia a casa em que devias passar uma só hora em uma noite; cobria-te o rosto com um véu para te levar à igreja; tinha os olhos fitos sobre os teus mestres; ensinou-te a amar a virtude no seio da solidão; tu cresceste; aos quinze anos eras bela, sem saber que o eras; alegre, sem conhecer o mundo, pura e inocente como a florzinha; porque enfim nunca se tinha queimado a teus pés o turíbulo lisonjeiro dessas reuniões perigosas, onde reina uma febre de vaidade tão fatal como contagiosa; porque enfim nunca falara a teus ouvidos o galante mancebo que jura quando mente; que festeja quando atraiçoa; que diz que ama, e vai rir-se!

— Oh! foi assim! exclamou Honorina abraçando sua amiga.

Raquel cotinuou:

(continua...)

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