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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Meses depois de realizada a obra beneficiadora da cidade, e de quase de todo esquecida a famosa história do lobisomem na casa de João Fusco, lobisomem de que principalmente as velhas davam testemunho até jurado da aparição, da correria e do desaparecimento misterioso por arte diabólica, Alexandre Cardoso que era vingativo e mau, explorando a freqüência de pasquins injuriosos que amanheciam pregados nas esquinas das ruas contra ele próprio, e contra o Vice-Rei Conde de Cunha, um dia mandou prender o sacristão da Igreja de S. José como suspeito de pasquineiro.

Era suspeita imaginada, calúnia indigna e perversa, vingança de opressor cruel.

Mas, ainda bem que a vítima, o sacristão, era sobrinho de padre, e ainda mais e melhor, sobrinho de padre vigário.

O marido de Águeda tinha averiguado, ponto por ponto, a história toda do lobisomem; guardaraa, porém, consigo a medo do oficial de sala.

O tio vigário, sabendo da prisão do sobrinho, foi ter com ele à cadeia, e ouvindo-o então narrar o caso do lobisomem, que explicava a injusta prisão, correu logo a referi-lo ao Bispo D. Frei Antônio do Desterro, e o bispo deu conhecimento de tudo ao Conde da Cunha, que mandou soltar o sacristão, bem que não acreditasse no que diziam contra o seu ajudante oficial de sala.

Propalou-se logo a história do lobisomem, e dias depois amanheceu em frente da rua do Padre Homem da Costa, junto da vala, fincado um poste e nele pregado o seguinte pasquim:

Mude-se o nome da rua,

Tenha outro nome e mais gala;

Seja, em vez de Homem da Costa;

Do Ajudante da sala, Que uma noite um lobisomem Aqui se banhou na vala.

Horas depois vieram soldados arrancar o pasquim, e derrubar o poste; muitas pessoas, porém, já tinham lido e decorado o malicioso versinho, que a tradição popular conservou.

Graças ao medo das perseguições do terrível oficial de sala do Vice-Rei Conde da Cunha, a atual tafulona Rua do Ouvidor escapou ao vexame de passar então a denominar-se não - Rua do Ajudante Oficial de Sala, como propusera o pasquim, mas Rua do Lobisomem, conforme alguns mancebos janotas do tempo, e mais atrevidos pela influência de suas famílias nobres ou ricas, durante semanas a chamaram por zombaria ao aborrecido Alexandre Cardoso.

A rua manteve a sua denominação de Padre Homem da Costa; mas parece que a proposição do pasquim e a alcunha sarcástica dada por aqueles mancebos destemidos já eram prenúncios da próxima deposição do Padre Homem da Costa no seu domínio denominativo da rua, que começava a ser anacrônica pela batina e o solidéu que ele usara.

A rua vai receber nome novo, e é de honra e de etiqueta que o receba em novo capítulo nestas Memórias.

CAPÍTULO 5

Como a Rua do Padre Homem da Costa chegou pele lado de terra em seu - plus ultra abrindo-se na atual Praça de S. Francisco de Paula: referem-se os tormentos de Cabido de Rio de Janeiro, e a história da Sé Nova, que nunca chegou a ser Sé. Transformação da cidade de Rio de Janeiro nos vice-reinados do Marquês de Lavradio e de Luís de Vasconcelos; diz-se como a Rua do Padre Homem da Costa andou, ou permaneceu pouco lembrada até que e Marquês de Lavradio que, como Henrique IV, era devoto do belo sexo, fez nela das suas costumadas proezas noturnas, amando a viuvinha Zezá, cunhada de Amotinado verdadeiro, que foi logrado pelo falso Amotinado. Como houve idéia e questão de mudança da denominação da rua, que acabou chamando-se do Ouvidor, em honra de Dr. Berquó. Anuncia-se a festa do primeiro centenário da Rua do Ouvidor e promete-se e programa da grandiosa solenidade.

Quando o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso, oficial de sala, perseguido como lobisomem na noite desastrosa, caiu dentro da vala no encruzamento da rua deste nome com a do Padre Homem da Costa, já esta há dezessete ou dezoito anos tinha pelo lado de terra chegado à extrema, onde pudera escrever - plus-ultra -; pois que acabara em sua embocadura na atual Praça de S. Francisco de Paula.

Breves explicações me parecem necessárias.

A Rua do Padre Homem da Costa fora obrigada a fazer alto quando chegou a Rua da Vala (hoje Uruguaiana): porque, além desta, o campo era do logradouro público, e não se permitiu o prolongamento da rua, e nem ainda um pouco mais tarde, bem que perto do campo que lhe vedavam já estivesse edificada a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de particular devoção dos homens pretos livres, libertos e escravos.

Mas enfim veio o Cabido do Rio de Janeiro resolver o problema da revogação daquele logradouro público.

O Cabido do Rio de Janeiro desde muito que reclamava Sé própria e condigna.

Arruinada a Sé primitiva, a Igreja de S. Sebastião do Castelo, hospedou-se o Cabido na então simples Capela de S. José; mas, faltando-lhe aí cômodos, invadiu quase à força a Igreja da Santa Cruz dos Militares.

É curiosa, mas triste, a história da campanha dos cônegos contra as irmandades donas da casa, estas a empurrar para fora os hóspedes, e os hóspedes a resistir, e opor-se à despedida; não cabe, porém, nestas Memórias a narração de quanto se passou nesse longo pleito.

(continua...)

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