Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Quando retirar do mano Américo a gerência da minha fortuna: eis a providência que vou tomar; acharei um procurador zeloso, prudente e honrado que se incumba deste negócio, e o efetue sem escândalo, e sem descrédito de meu irmão, a quem não me dirigirei sobre este assunto; porque me repugna expor-me ao extremo de confundi-lo em face.
Não preciso de informações nem de recomendações para a escolha do meu procurador: a minha luneta mágica me ensinará qual dentre muitos merecerá ser preferido.
Hoje mesmo darei principio a este estudo, aos trabalhos desta descoberta ou preferência.
O preenchimento do vácuo do coração é mais difícil, e há de ser mais moroso.
Estou; mas não é admissível que eu possa viver sem família.
Estou sem família, a visão do mal rompeu os laços que me ligavam aos meus três e únicos parentes.
Essas três afeições, essas três únicas flores do jardim do meu coração marcharam para sempre, e o meu seio ficou deserto e noite.
Nasci para amar, tenho sede de amor; não posso viver assim.
A família, é na terra a beatificação da vida do homem; a família, é o mundo em festa no lar doméstico; a família, é a imensa vida de amor, em que se identificam algumas vidas que se amam, que se abraçam, que se completam; a família, é a consolação no infortúnio, o suave descanso no fim do trabalho e das lidas, é o rir de muitos pela felicidade de cada um de seus membros, é na extrema hora o colo em que se encosta a cabeça para dormir o último sono, é o pranto de amor que orvalha a sequidão da morte, a mão de amor que, religiosa, fecha os olhos do morto.
Eu quero ter família, não posso viver sem ela.
Estou como enjeitado que sai do hospício estou só, sem um parente, estou—deserto e noite, e aspiro sociedade e luz.
O enjeitado não tem; mas pode criar e cria uma família, para si, procura uma mulher, e abre-lhe o coração; a mulher o faz esquecer o deserto e a noite do passado, dando-lhe a sociedade, e acendendo-lhe a luz do presente e do futuro.
A mulher é a placenta da família, é a criação privilegiada, a última e a mais mimosa criação de Deus, que em um sorrir divino nela derramou a graça que encerra o encanto da vida do homem. Eu quero procurar uma mulher jovem, bela e pura, que me dê família, eu estou deserto e noite; quero receber a companhia do coração e a luz dos olhos de uma mulher formosa e santa; quero um anjo, a cujas asas brancas me prenda, para sair do deserto e da noite.
Avalio bem as proporções imensas da minha aspiração; mas a luneta mágica me deixa ler os segredos de todas as almas, e, mercê desse encantado privilégio, hei de achar o botão de inocência que almejo, a noiva—anjo da terra que adorarei perpetuamente.
A mesa do almoço apareci com a minha luneta, e causei surpresa; disse que auxiliado pelo poderoso vidro, podia ver melhor do que dantes, embora menos do que desejava; mas acabando de almoçar e usando da luneta, servi-me de um palito sem pedir que mo dessem.
Diante dessa prova evidente de que já me era fácil distinguir um palito, o mano Américo abriu a boca espantado, a tia Domingas benzeu-se, e a prima Anica consertou com faceirice as dobras e o laço do seu fichu que aliás não tinham desconserto algum.
Enfim meu irmão e minha prima deram-me uns parabéns que me pareceram muito dessaboridos; minha tia disse: "Deus te abençoe para que não peques pelos olhos!" e eu despedi-me e fui para o júri.
X
Nas ruas vi tudo de passagem e frui mil gozos novos para mim com a simples visão das aparências; mas chegando à sala do júri e tomando a minha cadeira, dispus-me a não poupar o meu privilégio da visão do mal.
Nesse dia não sai sorteado, embora se formassem dois conselhos que consecutivamente julgaram o primeiro um, o segundo dois réus.
Em qualquer dos três réus encontrei um coração negro, um homem-fera; do primeiro julgado, porém, não lhe descobri na consciência indicio algum do crime de que o acusavam, e foi exatamente contra esse que mais vigorosa se desencadeou a palavra do acusador.
Fitei minha luneta no advogado que assim falava por parte do autor, e no fim de breves minutos reconheci que ele estava convencido da inocência do réu que acusava.
Examinei no segundo processo a consciência do eloqüente defensor dos dois réus justamente processados por crime de homicídio, e vi que ele fazia prodígios de habilidade sofista para iludir os jurados. e levá-los a obrigar injusta sentença de absolvição.
Arredei de meus olhos a luneta que acabava de fazer-me descrer do sacerdócio da advocacia.
—Como é, perguntei a mim mesmo; como é que um advogado ostenta a mentira e o dolo, rebaixando uma das mais nobres e esplêndidas profissões, sustentando, demonstrando o contrário do que pensa e do que sente, para ganhar a soma, porque contratou a acusação ou a defesa?... —Como é que se abate assim o talento, e se aniquilam as grandes noções do dever?
(continua...)
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