Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Antes disso, porém, havia o batizado da Julinha. Estava tudo pronto como para uma grande recepção de aniversário: vidros, móveis, tapetes, cristais, o serviço da copa, o buffet, uma quantidade enorme de garrafas, mesa lauta sobre à qual viase toda a baixela da casa e vasos com flores naturais e altas pirâmides de doce, pondo manchas na brancura da toalha, e em cada prato um buquezinho de violeta arranjado especialmente pelas mãos de D. Branca; e em toda a casa, desde a sala de visitas até os fundos da cozinha, um ar alegre de interior holandês, um ar festivo e risonho, cheirando a flores como a atmosfera matinal dos jardins. Viam-se em todo aquele esmero, em toda aquela simplicidade grega — na composição de um vaso, no arranjo dos buquês — o zelo aristocrático de D. Branca e o gosto não menos aristocrático de Luís Furtado harmonizando-se nas menores coisas, traindo-se a cada hora. O papel da sala de visitas parecia mais novo; os quadros destacavam-se, muito nítidos, numa bela disposição ornamental de galeria pobre; o piano sofrera uma mão de óleo e guardava ainda o cheiro da fábrica, de costas para a janela, reluzindo como um espelho; as cortinas pendiam frouxamente das armações de ouro... Enfim, na alcova esponsalícia de D Branca estava o berço de Julinha> todo em festa, ao lado da grande cama de casal. Para aí é que deviam convergir os olhares do desembargador e da mulher, especialmente destes, porque D. Branca entendia que ser dama do paço era merecer as atenções devidas à própria imperatriz; além disso, o velho Lousada tinha, mais do que ninguém, direito a essas atenções como padrinho da pequena. D. Branca esforçara-se por dar ao berço um aspecto luxuoso e sereno, para que se não dissesse que ela, no meio das suas ostentações, pouco amor tinha aos filhos. E conseguira-o, sem desprezar um ou outro conselho quer de Adelaide, quer de Furtado, quer mesmo de Evaristo, que também fora chamado a dar sua opiniãozinha.

— Eu nunca tive filhos, minha senhora... - protestou ele.

Mas a esposa do secretário alegou que era justamente por ele nunca ter tido filhos que lhe pedia a opinião.

E, agarrado por um braço e pelo outro, o marido de Adelaide lembrou, espirituosamente, que se devia colocar na cúpula a seguinte inscrição: Este filho é o último da prole... — o que fez rir muito a D. Sinhá do desembargador, a ela só, porque os outros não acharam graça na idéia.

O leito de Julinha era todo de uma madeira escura e sólida, como ébano-daíndia, e custara um dinheirão ao Furtado. Imitava o casco de urna pequena gôndola com a proa recurva e estreita. Sobre ele caía fartamente uma nuvem de rendas, abrindo-se para um e outro lado e quase tocando o chão. A cúpula era um verdadeiro trabalho de arte, muito simples, mas curioso, representando uma coroa ducal com embutidos de marfim. No alto do cortinado, um grande laço de seda azul com franjas de ouro...

Ao todo seis carros, inclusive a berlinda, em que ia a pequena nos braços da ama e a mulher o desembargador. As outras eram ocupadas sucessivamente pelo funcionário do governo e D. Branca, pelo Furtado e o Raul, pela viúva Tourinho, pelo tesoureiro do Banco Industrial e a esposa, e o último carro por dois amigos do secretário, rapazes do comércio.

D. Sinhá não quis ir à igreja, deixando-se ficar em companhia de Evaristo e de

Adelaide nas suas toilettes de pouca cerimônia, esperando a volta do batizado — "que era uma grande maçada vestir-se toda de luxo somente para ouvir o latim de monsenhor Teixeira; logo não estavam vendo?..."

Caíam as primeiras sombras da noite quando um rodar de carros anunciou o regresso da Julinha com todo o seu acompanhamento. Encheram-se as janelas de curiosos que queriam ver a criança, e um ligeiro alvoroço percorreu, como um frêmito de novidade, aquele trecho do aristocrático bairro. — É o batizado! é o batizado! — exclamaram vozes alvissareiras; e os carros, um a um, foram parando na mesma ordem da saída, com a mesma distinção, e um a um foram-se apeando os convidados, primeiro os cavalheiros, depois as senhoras, risonhos todos, numa onda invisível de essências. À porta da casa, tapetada de folhas, houve um murmúrio, destacando a voz de Furtado:

— Entrem, meus senhores, queiram ter a bondade...

Seguiu-se o jantar — "um banquete de príncipe!" na opinião de Evaristo. Adelaide foi apresentada à viúva Tourinho e ao Loiola do Banco, houve brindes ao dessert, todos acabaram tratando-se familiarmente, esquecendo o vestido de seda e a casaca, e a própria Julinha que, depois de um berreiro infernal, adormeceu com a serenidade de um anjo.

Era noite quando Luís Furtado ergueu-se para levantar o último brinde, o brinde de honra à "Sereníssima senhora D. Isabel, princesa imperial e herdeira presuntiva do trono do Brasil!" O champanha espumava nas taças de cristal e os hip! hip! hurras! estrondearam em toda a casa.

— À Sereníssima!

— À herdeira da coroa!

— À imperial madrinha da Júlia!

E, todos de pé, esvaziaram as taças.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1213141516...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →