Por Adolfo Caminha (1894)
A jovem oficialidade brasileira, exímia em cotillons, expandiu-se a valer nessa magnífica soirée de inverno, fria e clara, constelada de botões de ouro e brilhante, longe da pátria, longe de suas famílias, mas no seio dum povo que nos amava deveras.
Sarau principesco esse de que ainda sinto o saibo esquisito ao traçar as reminiscências da minha primeira ausência do Brasil.
Mesa abundantíssima e franca, desde a deliciosa sopa de ostras com molho inglês ao mais fino champanha Clicot, com escala pela maionese de lagosta, fresca e picante, pelo suculento poisson a l'italienne, rubro e apetitoso... e tantos, meu Deus, e tantíssimos outros pratos maravilhosos inventados pela gula epicurista de todas as gerações desde Lúculo até à nossa.
Volvemos para bordo seria madrugadinha, trôpegos, cansados e sonolentos, pálpebras caídas, suplicando a frescura dum travesseiro, dentro de nossas invioláveis capas da Bretanha.
Uma noite brasileira com todos os excessos da nossa educação e do nosso caráter; saudosa noite, a primeira de minha vida em que me enfronhei numa casaca irrepreensivelmente bem-feita...
O Barroso, diluído na escuridão da noite, aproado à correnteza que descia rio abaixo cantando uma melodia de lenda, o Barroso — pedaço da pátria longínqua — acenava-nos com a sua luzinha amarela palpitando às rajadas do vento frio.
... E os bailes repetiam-se e nós vivíamos cercados da alegria comunicativa desse povo americano eternamente jovial!
Falemos ainda das mulheres de Nova Orleans.
Belas quase todas, amáveis e insinuantes, cheias duma inexcedível graça que arrebata e seduz voluptuosamente.
As créoles, ah! as créoles... ninguém as vê que não as fique desejando.
Caracteres principais: tez morena, com uns tons de rosa na face, olhos muito negros, criminosos até ao homicídio flagrante, pequenas, delicadas, flexíveis, aéreas quase, conjunto meigo e melancólico, muito sensíveis... A vaga expressão de seu olhar aveludado derrama não sei que misterioso fluido, cujos efeitos traduzemse em voluptuosas sensações, secretos desejos de posse absoluta.
Como diferem as chamadas créoles das verdadeiras americanas!
Estas — muito rubras, cabelo cor de ouro, olhos azuis — são frias, quase indiferentes ao amor, egoístas de sua beleza de estátua, vivendo para o trabalho e para a família; aquelas — adoráveis com as suas linhas ideais, com a vaga e comunicativa melancolia de seu olhar voluptuoso — fazem lembrar um povo místico e cheio de bondade d'algum país nebuloso e desconhecido...
É curiosa a origem da população créole de Nova Orleans. Ela descende na maior parte de aventureiros canadenses e courreurs des bois — gente ousada e valente, que emigrou do norte para o sul da América setentrional, por terra, através de inóspitos desertos povoados de selvagens perigosíssimos. Esses aventureiros chegaram à Luisiana sem famílias, depois de uma viagem cheia de trabalhos e fadigas, descansando, por fim, às margens do Mississipi. A Luisiana era então colônia francesa, e o rei, apiedando-se da sorte dos infelizes imigrantes, que viviam solteiros, longe de sua pátria natal, sujeitos a uma castidade quase absoluta, quis aproveitá-los para a colonização. Nesse intuito mandou vir de Paris um carregamento de mulheres, prisioneiras da Salpetrière, que chegaram à Nova Orleans em ferros, e onde foram postas em liberdade e entregues à concupiscência da população masculina.
Isso, porém, não trazia vantagens à colônia, que precisava de gente. Os canadenses satisfaziam seus apetites carnais sem que aumentasse o número de habitantes — fato este que não passou despercebido ao diretório da Companhia da Luisiana, cujo principal interesse era a multiplicação das almas.
Nestas condições foram dadas outras providências, e, em 1728, chegou à Nova Orleans um grupo de raparigas, conhecidas na Luisiana histórica pelas filles de la cassette ou casket girls, mandadas pelo rei para o convento das Ursulinas a fim de se casarem licitamente. A experiência foi coroada de sucessos. Em breve tempo começou a crescer a colônia e os descendentes da cassette tinham orgulho em o serem.
Tal foi a origem humilde dos primeiros filhos nativos da Luisiana.
Seu sangue é uma mistura de sangue canadense e sangue francês.
A mulher americana do Norte é geralmente bem-educada. Muitas vimos em Nova Orleans, que conheciam e falavam dois, três idiomas, além do vernáculo.
Preocupam-se pouco com bailes e modas, trajam com simplicidade e elegância, sem afetação, sem a natural coquetterie da mulher parisiense. Seu divertimento predileto é a música.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.