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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

E lá cima, no passadiço, o oficial de quarto, vigilante e imperturbável, de hora em hora:

— Barca!

Havia um rebuliço ligeiro; o guardião apitava acordando a gente de serviço: — Levanta, levanta! olha a barca!... — e as horas iam correndo assim, monotonamente.

Bom-Crioulo estava de folga. Seu espírito não sossegara toda a tarde, ruminando estratagemas com que desse batalha definitiva ao grumete, realizando, por fim, o seu forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega.

Por vezes tinha querido sondar o ânimo do grumete, procurando convencê-lo, estimulando-lhe o organismo, mas o pequeno fazia-se de esquerdo, repelindo brandamente, com jeitos de namorada, certos carinhos do negro. — Deixe disso, Bom-Crioulo, porte-se sério!

Nesse dia Priapo jurou chegar ao cabo da luta. Ou vencer ou morrer! — Ou o pequeno se resolvia ou estavam desfeitas as relações. Era preciso resolver “aquilo”.

— Aquilo quê? perguntou o rapazinho, muito admirado.

— Nada; o que eu quero é que não te zangues comigo.

E precipitadamente:

— Onde vais dormir esta noite?

— Lá bem à proa, na coberta, por causa do frio. — Bem: havemos de conversar.

Às nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca e precipitou-se no encalço do pequeno. Foi justamente quando o viram passar com a trouxa debaixo do braço, esgueirando-se felinamente...

Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo roliço, a branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contactos impuros, um apetite selvagem cortou a palavra ao negro. A claridade não chegava sequer à meia distância do esconderijo onde eles tinham se refugiado. Não se viam um ao outro: sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores.

Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, aconchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer cousa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se, instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo: o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios....; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se em todo o corpo. Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse — uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade...

— Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se.

E consumou-se o delito contra a natureza.

CAPÍTULO IV

Amanhecera um belo dia de sol, quente, luminoso, de uma transparência fina de cristal lavado.

Logo pela madrugadinha, antes de apagar-se a última estrela, a corveta “acendera fogos”, e demandava o porto, em árvore seca, impulsionada pela sua velha máquina de sistema antigo — um estafermo quase imprestável, porejando vapor, abrindo-se toda em desconjuntamentos de maquinismo secular.

Enfim se chegava!

Agora cada um tratava de si, de sua roupa, do que trouxera da longa viagem ao sul, dessa viagem maldita que parecia não acabar nunca.

Lá estava bem defronte, por bombordo, o Pão d’Açúcar, talhado a pique, sombrio, íngreme, batido pelas ondas, guardando a entrada; e mais longe para o sul — termo final de uma espécie de cordilheira primitiva e bronca — o cocuruto da Gávea, cinzento, dominando o mar...

— E aquela ilha com ponto branco? perguntou Aleixo curiosamente,

Estava ao lado do Bom-Crioulo, contemplando embevecido a costa fluminense.

— Aquela ilha é a Rasa, explicou o negro. Não vês o farol, aquilo branco?...

E começou a descrever o pedaço do litoral que se ia desdobrando à luz, alcantilado e fulgurante, como essa terras lendárias de tamoios e caramurus... Aquela faixa de areia, muito estreita, do outro lado (e estendia o braço por cima do ombro do pequeno), beirando a água, chamava-se Marambaia. Lá adiante, uma montanha quase apagada, era o Cabo Frio...

E foi indicando, um a um, com exclamações de patriotismo, os acidentes da entrada, os edifícios: as fortalezas de S. João no alto, e de Santa Cruz à beira mar, olhando-se, com sua artilharia muda; a Praia Vermelha, entre morros; o hospício; Botafogo...

Tudo aquilo, dizia ele abarcando com um gesto largo, morros e casas, tudo aquilo é a cidade de Niterói, ouviste falar?

— Não ...

— Pois é ali.

Aleixo, de resto, não experimentava grande surpresa. Entre montanhas havia ele nascido e perto do mar. O entusiasmo de Bom-Crioulo nem sequer o abalava: fazia outra idéia do Rio de Janeiro!

— Mas isto ainda não é a cidade, meu tolo, explicava o negro. Tu não viste nada por enquanto...

A corveta aproximava-se de Villegaignon...

Bom-Crioulo mal teve tempo de dizer ao grumete: —“Foi ali que eu comecei...” E desapareceu entre a chusma da marinhagem.

(continua...)

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