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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— Não posso jejuar hoje, porque é sábado, nem amanhã, porque é domingo. Um bom cristão não pode fazer de tristeza o dia em que o Senhor descansou e em que Judas se enforcou, nem tampouco o dia em que Jesus Cristo ressuscitou. Já os Sagrados Apóstolos o ensinaram e S. Clemente Romano o repetiu nas Constituições Apostólicas. Santo Inácio disse que quem jejua aos sábados e domingos é matador de Cristo - Si quis dominicam diem... V. Rev.ma sabe o resto. Ora eu não quero ser o matador do meu Deus, coisa de que Nosso Senhor de Belém me livre...

A heresia era evidente, e desta vez complicada desobediência e desrespeito formais. Padre Azevedo ficara verde de indignação, que a muito custo concentrara por alguns momentos, atendo-se a um silêncio esmagador que pesou sobre toda a classe e produziu sobre Antônio de Morais o efeito dum calmante poderoso, que lhe permitiu entrever o excesso de vaidade o levara. Os colegas miravam-no com desprezo mesclado do santo horror da heresia. Ele próprio, encontrando-se no meio da sala, com o braço estendido, achou-se ridículo, cheio de fatuidade e ignorância, vítima indefesa do demônio que lhe tentava o amor de aplausos para melhor lhe segurar a alma...

Mas o silêncio do mestre não fora demorado, que não lho permitia a índole barulhenta. Largara a cadeira, num ímpeto de vingança pessoal, mas a consideração do organismo atlético do campônio que tinha diante de si transformado em formigão, ou o sentimento da dignidade do cargo obrigou-o a recorrer à autoridade do reitor, que não tardou em aparecer, sombrio e grave na sua batina negra.

Fora informado do ocorrido, e mostrava no rosto o espanto causado pela rebeldia do seminarista, e a resolução firme de dobrar aquela vontade exaltada e impetuosa. A campanha estava de antemão vencida. Antônio nenhuma resistência opusera ao carrasco. Roera a dúzia de bolos com resignação evangélica, e entrara para o cárcere submisso e arrependido, curtindo em silêncio o áspero jejum de três dias a pão e água.

Caíra em grande abatimento de espírito. Encarara como devia o seu inqualificável procedimento, inspiração do demônio. Sentira a necessidade dolorosa duma penitência severa, proporcionada ao pecado mortal em que abismara a alma. Exagerar mesmo a gravidade da culpa, e nas largas insônias daquelas três noites magras, a fome causara-lhe alucinações terríveis, que dificilmente o seu organismo de matuto, acostumado à alimentação abundante, podia dominar. Persuadira-se de que já estava condenado ao inferno, e ficara horas inteiras, hirto e pálido, sobre a esteira que lhe servia de cama, sentindo um suor frio correr-lhe pela fronte, quando a idéia da morte a surpreendê-lo em pecado mortal vinha assaltar-lhe a mente enferma. Recordara, outras vezes, as descrições que lera das penas do inferno, dos suplícios tremendos que aguardam os condenados, e sobretudo, a idéia da eternidade dos castigos apavorava-o a tal ponto, que se pusera a menoscabar os espantosos padecimentos dos confessores da fé, desses sublimes heróis do cristianismo que com justiça a Igreja proclama santos, por não parecerem homens. Pensara, no seu terror, que nada eram esses sofrimentos, desde que com eles, rigorosamente, se comprava - dá cá, toma lá - a salvação eterna. Julgara-se então capaz do mais cruel martírio, e o próprio S. Quintino não lhe levaria a palma no prazer com que se banharia em azeite fervendo e se deixaria fritar pez derretida. Imaginara uma vida de ascetismo tal que deixasse obscurecida a fama dos Hilariões, Antões e Macários, e mesmo a do grande S. Jacó, no último quartel da sua longa acidentada existência.

Mas - infelizmente - se recordava a sobranceira e desprendimento deste decantado anacoreta, friccionando o peito da pecadora com a mão direita, enquanto deixava arder a esquerda ao calor dum braseiro, não podia esquecer o assassinato cometido pelo santo depois de velho e de ter ganho fama de virtudes, em uma jovem de boa família que lhe fora confiada para a catequese, e que, primeiro, deflorara, e, depois, cortara em pedacinhos para esconder os vestígios do crime...E, mau grado seu, os ardores da sensualidade que procurara comprimir voltavam-lhe em bando sem disciplina, evocando a lembrança de grandes pecadores convertidos, e dandolhe uma ânsia de cometer mais pecados ainda para remi-los todos por um arrependimento sincero, capaz dos maiores sacrifícios e tormentos. Umas vezes requeimava-se ao fogo da concupiscência, sonhando maiores devassidões em que se atolasse duma assentada na plena imundície dos vícios mais desregrados, para saciar a fome de deleites que o devorava, e poder, morta de gozo a parte terrena e demoníaca do seu ser, elevar a alma às regiões sublimes do Amor Divino, pura de toda a mancha do interesse carnal. Outras vezes, queria imaterializar o corpo, dominando-lhe os apetites com o estoicismo de S. Vicente de Paula ou de Santo Efrém, invejando as tentações que sofreram, somente pelo gosto de as colafizar sobranceiramente.

(continua...)

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